Com mais de duas décadas de trajetória no rock brasileiro, o Detonautas se prepara para abrir um novo capítulo na carreira com o lançamento de Rádio Love Nacional. O disco, que reúne 11 faixas inéditas, mistura rock, pop e batidas eletrônicas, marcando uma fase de experimentação sonora para a banda liderada por Tico Santa Cruz.
Segundo o vocalista, o projeto representa uma oportunidade de renovação criativa após tantos anos de estrada. “Eu acho que o mais difícil para um artista que já tem quase 30 anos de história é se renovar. Mesmo quando você tenta fazer coisas novas, existe uma tendência de voltar sempre para o lugar comum da banda”, explica.
Para Tico, o novo trabalho conseguiu justamente romper com esse padrão. “O Rádio Love Nacional é um lugar totalmente incomum que a gente conseguiu acessar. Dentro dessa perspectiva, entendemos que estamos abrindo portas para novas ideias e futuros projetos baseados nessa experiência.”
Uma dessas portas, segundo ele, foi a parceria com novos colaboradores. O disco conta com produção de Pablo Bispo e Hux, conhecidos por trabalhos no pop brasileiro. Para o vocalista, essa troca foi fundamental para expandir a sonoridade da banda.
“Poder trabalhar com o Pablo Bispo e com o Hux foi uma porta muito importante que se abriu. Eles têm uma percepção musical e criativa muito interessante e, ao mesmo tempo, conheciam o Detonautas desde antes. Eles já eram fãs da banda quando eram adolescentes, então entendem muito bem a nossa essência.”
A ideia do álbum surgiu a partir de uma única música: “Potinho de Veneno”, que acabou se tornando o ponto de partida para todo o projeto.
“Quando a gente entrou nesse processo, a gente não tinha absolutamente nenhum material. Tudo começou com uma música só, que foi Potinho de Veneno. Quando mostramos para o Pablo, ele gostou muito e perguntou: ‘E se fosse um disco inteiro com esse conceito?’”, relembra.
A proposta, no entanto, trouxe também uma certa insegurança inicial para a banda.
“No primeiro momento foi um pouco assustador, para ser honesto. A gente pensou: fizemos essa música, ela ficou muito legal, mas como vamos desenvolver todo um disco a partir disso? Era tudo muito novo para a gente.”
Apesar do receio inicial, o processo acabou se transformando em uma experiência criativa valiosa. Para Tico, o segredo foi justamente se permitir explorar novos caminhos.
“Quando você se propõe a aprender coisas novas e abrir portas para outros universos, você descobre que ainda existem muitos lugares que pode visitar. Às vezes, por comodismo, a gente evita dar esse passo. Quando demos esse passo, vimos esse universo se abrindo de uma maneira muito interessante.”
Essa busca por novos territórios musicais também aparece na sonoridade do disco. Ao longo das 11 faixas, o Detonautas mistura referências diversas, passando por rock, pop e elementos eletrônicos.
“O Detonautas sempre foi uma banda plural. A gente já gravou baladas, músicas pesadas, hits mais pop. Isso faz parte do nosso DNA. Mas nesse lugar que a gente foi dessa vez, a gente nunca tinha ido”, conta.
Entre as experiências presentes no álbum, o vocalista cita influências que vão desde tecnobrega e tecnopop até misturas inusitadas de estilos.
“A gente misturou um pouco de metal com trap, por exemplo. Tem uma linguagem mais jovem ali, mas ao mesmo tempo com o peso que a gente traz dos anos 90.”
Além da parte musical, o disco também apresenta uma proposta conceitual que mistura a estética de uma estação de rádio com elementos cinematográficos. Cada faixa funciona como se fosse parte de uma programação fictícia.
“Existe esse conceito da estação de rádio tocando vários estilos diferentes, e a gente está levando isso também para a turnê, com vinhetas como se fossem de rádio. Mas ao mesmo tempo tem uma ideia cinematográfica: é como se Rádio Love Nacional fosse um filme de uma estação de rádio.”
Essa proposta aparece inclusive nos títulos das músicas e na identidade visual do projeto.
“Todas as faixas têm algo cinematográfico, como se fossem trilhas sonoras de filmes. A gente tem músicas como Fim da Encruzilhada, Drama de Cinema, Coração Latino. O conceito visual também segue essa ideia de pôsteres de filmes.”
Entre as músicas que ganham destaque no disco está “Vampira”, um dos singles do álbum. A faixa traz uma abordagem irônica sobre a forma como alguns homens lidam com a liberdade feminina.
“A Vampira é uma música completamente diferente de tudo que a gente já fez. Ela tem uma levada eletrônica e uma letra meio psicodélica. A ideia é brincar com a visão de um homem que olha para uma mulher livre e, incapaz de entender essa liberdade, acaba enxergando ela como uma ‘vampira’, quase como um personagem de filme de terror.”
Apesar das novidades, Tico reconhece que lançar um trabalho tão experimental após tantos anos de carreira também gera expectativa em relação à reação do público.
“Quando você cria algo muito novo, você ainda não sabe qual impacto aquilo pode causar. Então existe essa ansiedade para ouvir o que as pessoas vão achar.”
Entre as 11 faixas do disco, o vocalista aponta “Potinho de Veneno” como a gênese do projeto, mas acredita que outras músicas também têm potencial de ganhar força com o público.
“Acho que Rádio Love Nacional e Fim da Encruzilhada têm capacidade de furar a bolha e chegar em mais gente.”
Para Tico, o principal desejo é que o novo trabalho mostre que o Detonautas continua disposto a se reinventar.
“Eu espero que quem ouvir o disco perceba que é uma banda que continua se permitindo criar, que não se colocou em um lugar de conforto. A gente botou a cara para bater e falou: além de tudo que fizemos até hoje, a gente tem mais isso aqui também.”
E quando o assunto é o palco, o vocalista revela que ainda sonha em ver todas as músicas do novo álbum ganhando espaço nos shows da banda.
“Eu gostaria que fosse um disco inteiro na setlist, porque acho que ele tem potencial para isso. Mas tem uma música que eu gosto muito, pessoalmente, que é Chamador Fantasma. Acho que ela pode funcionar muito bem ao vivo.”
Com Rádio Love Nacional, o Detonautas aposta em um novo momento criativo, equilibrando a identidade construída ao longo de décadas com a coragem de explorar caminhos ainda desconhecidos.
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