Mac DeMarco e o vício em criar: nova fase, velhas emoções no Brasil

Quando se fala em indie dos anos 2010, é quase impossível não pensar em Mac DeMarco. Não só pelo som, como aquele timbre levemente desafinado, chorus ondulando como fita VHS antiga, mas pela atitude: o antiastro que virou referência global sem nunca parecer interessado em ser referência.

Foto: Divulgação

Agora, ele volta ao Brasil para uma série de shows que prometem algo além da nostalgia. A turnê divulga Guitar (2025), disco que marca um retorno à essência depois de um período curioso e quase caótico na sua discografia.


Em 2023, Mac confundiu até os fãs mais fiéis. Primeiro lançou Five Easy Hot Dogs, um álbum instrumental gravado durante uma viagem de carro pelos Estados Unidos. Depois, veio One Wayne G, uma coletânea monumental com 199 faixas, sendo praticamente um arquivo aberto do seu HD criativo. Era bonito, mas também parecia um artista testando os próprios limites.


No meio disso, surgiram boatos de aposentadoria. Ele mesmo alimentou a história, meio em tom de piada, meio sério demais para ser ignorado. Só que Mac nunca pareceu alguém pronto para parar. Pelo contrário: ele soa como alguém que precisa fazer música para existir.


Guitar nasce justamente desse momento de “limpar os canos”, como ele descreveu. Sem excesso de técnica, sem obsessão por fidelidade sonora. As músicas foram gravadas no dia em que foram compostas, quase como registros emocionais imediatos. O resultado é cru, íntimo e, acima de tudo, honesto.


Quem viu Mac por aqui em 2015 sabe que ele não trata o Brasil como parada protocolar de turnê. Ele gosta da sensação de estar no hemisfério sul, da intensidade do público, da energia meio caótica que transforma qualquer show em celebração imprevisível.

Dessa vez, ele opta novamente por casas menores, uma decisão que diz muito sobre sua filosofia. Enquanto muitos artistas buscam palcos cada vez maiores, Mac parece interessado em proximidade. Ele quer ver rostos, sentir o calor do lugar, testar arranjos ao vivo e transformar cada noite em algo ligeiramente diferente.


É quase como se o palco fosse extensão do estúdio. Ou melhor: o estúdio agora fosse extensão da estrada.


É curioso como o som de Mac atravessou gêneros. Seu jeito de tocar guitarra e produzir virou referência para artistas do indie ao R&B contemporâneo. Há ecos dele em trabalhos de nomes como Tame Impala, Tyler, the Creator, Justin Bieber e Steve Lacy.


Mas o mais interessante é que, para ele, o essencial não está no timbre copiável ou no solo característico. Está na sensibilidade. Na forma como a melancolia e o humor convivem na mesma canção. Na produção que soa relaxada, mas é cuidadosamente pensada para parecer espontânea.Mac nunca quis ser o “guru do indie”. Só que acabou virando.


Quem for aos shows no Brasil pode esperar um set que equilibra o passado e o presente. As canções que o consolidaram devem dividir espaço com as faixas de Guitar, que ao vivo tendem a ganhar ainda mais textura, às vezes mais sujas, às vezes mais expansivas.

Mas, acima de tudo, dá para esperar imprevisibilidade. Mac é desses artistas que podem alongar uma música, contar uma história sem sentido entre as faixas ou transformar um momento simples em algo memorável.


Se houve uma falsa aposentadoria, ela serviu apenas para reforçar algo óbvio: Mac DeMarco não está encerrando ciclos, ele está ajustando a rota.


Confira as datas dos shows:

  • 3 de abril - Rio de Janeiro, RJ - Sacadura 154
  • 4 de abril - São Paulo, SP - Audio (esgotado)
  • 5 de abril - São Paulo, SP - Audio (data extra)
  • 8 de abril - Brasília, DF - Toinha
  • 10 de abril - Recife, PE - Concha Acústica UFPE
  • 12 de abril - Belo Horizonte, MG - Autêntica
  • 14 de abril - Curitiba, PR - Tork
  • 15 de abril - Florianópolis, SC - John Bull
  • 16 de abril - Porto Alegre, RS - Opinião


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