Entre a névoa da madrugada e o sol aberto do dia que começa, Daniel Gnatali encontrou a forma de apresentar um repertório que vinha se adensando nos últimos anos. A primeira parte dessa leva de canções chega às plataformas nesta sexta-feira (17 de abril), no EP “Antes do sol”.
Ainda este ano, “Manhã de festa” traz o outro lado dessa produção como um segundo EP. Apesar de suas atmosferas completamente distintas, os registros soam como momentos diferentes de um mesmo movimento interior.
De um lado, a suspensão, o mistério, a delicadeza contemplativa. De outro, a chegada ao corpo, à rua, à dança.
Antes do Sol
“Antes do sol” ocupa o campo da sugestão, do que ainda está para se mostrar. Gnatali sintetiza: “‘Antes do sol’ é como se fosse um sonho, algo envolvido numa certa névoa de mistério, uma pré-revelação”. Não por acaso, aí se concentram as canções mais próximas de um imaginário folk-pop moldado por Beatles, Beach Boys e pelo artesanato melódico das décadas de 1960 e 1970.
“Ventre a luz do mundo” abre esse percurso num estado de suspensão que parece anteceder a própria forma — uma canção que se ancora na ideia de origem e de criação, “antes do sol”, quando tudo ainda é matéria indistinta e potência. É simbólico que Nina Becker, irmã de Gnatali, faça uma participação especial na faixa — Laura Becker, também irmã do compositor, cumpre o mesmo papel na outra ponta do projeto, na última faixa do segundo EP.
“Estação” encena a instabilidade do amor com uma leveza country-rock, numa letra na qual o sentimento chega e parte “de trem”, sem aviso — num arranjo em que os synths desenhados por Antonio Guerra ampliam a sensação de trânsito e suspensão.
“Dear to me”, em inglês, retoma a tradição das baladas sessentistas, com versos de intimidade e reconciliação. “Lady Lo”, também em inglês, investe numa construção melódica delicada onde repousam os versos de serenidade.
As duas faixas têm ainda uma camada de tempo própria — elas começaram a ser gravadas em caráter caseiro no início dos anos 2010, em parceria com Gabriel Mayall, e são agora retomadas e finalizadas no estúdio, com co-produção do músico ao lado de Guerra.
“Quando me mudei” fecha o EP como ponto de inflexão. Musicalmente ancorada no rock brasileiro dos anos 1970, com ecos de uma tradição que vai de Rita Lee a Belchior, a canção traz uma escrita marcada por jogos sonoros e aliterações, mas também por um deslocamento interno mais profundo. A letra acompanha um movimento físico — a ida de Gnatali para Visconde de Mauá — como um processo de aproximação de si: “Onde o sol se esconde/ Eu me aproximava de mim”.
Uma mudança geográfica que se converte em reorganização do olhar, como se a paisagem operasse uma espécie de depuração da experiência, tornando a vida “mais nítida”, “mais vívida”. A canção, nesse sentido, dialoga com uma tradição da MPB que transforma o exílio — voluntário ou não — em matéria de autoconhecimento, numa chave próxima à de “Back in Bahia”, de Gilberto Gil, referência direta assumida por Gnatali na construção da faixa.
“Quando me mudei” funciona, também, como ponte, é a música que abre a porta para o segundo EP que virá, deslocando o eixo do sonho para a experiência concreta.
“Apesar de a música falar de quando eu estava indo pro mato, na prática ela está representando a volta pro Rio, essa descida da cachoeira pro mar”, diz o artista.
A imagem sintetiza o percurso maior da dupla de EPs, de um estado mais rarefeito, contemplativo, para outro mais terrestre, luminoso, que se afirmará em “Manhã de festa”.
Assim, a canção que fecha “Antes do sol” não encerra um ciclo — ela o desdobra, conduzindo o ouvinte da névoa inicial a uma manhã em que o corpo e a concretude passam a ocupar o centro da cena.
Nesse processo, a presença de Antonio Guerra, ou “Tonico”, como Gnatali o chama, como produtor é fundamental. Mais do que organizar o material, ele assumiu o papel de um parceiro que impulsiona as decisões.
Amigo desde a infância, ele aparece como uma espécie de primeiro ouvinte qualificado, aquele que reconhece a força das canções antes mesmo de elas ganharem forma definitiva. “Ele ouviu e falou: ‘porra, cara, essas músicas são foda’”, lembra Gnatali.
A partir daí, Guerra o instigou a levar o projeto adiante com mais ambição, não apenas registrar as músicas, mas investir nelas como um trabalho de fato. No estúdio, essa escuta guiou sua direção musical.
Os arranjos, incluindo os de cordas e sopros, também assinados por Guerra, dão forma clara às diferentes identidades do repertório. Ao mesmo tempo em que organiza o conjunto de canções, Guerra ajuda a liberar sua heterogeneidade, dando forma a essa convivência entre linguagens que define o projeto.
Assinatura de compositor
O que atravessa os dois EPs é uma mesma assinatura de compositor, capaz de ligar o folk, o samba, o forró, o rock e a balada pop por uma perspectiva que busca beleza mesmo quando toca a instabilidade amorosa, a passagem do tempo ou a dúvida. Essa unidade está no centro do projeto, como ele mesmo explica, sua obra “é a vida filtrada poeticamente pelo meu olhar”.
Um olhar que se manifestou inicialmente nas artes visuais, onde Gnatali já tem uma trajetória consolidada, aliás, é ele mesmo quem faz as capas de seus discos. A música correu em paralelo. Ao longo dos anos, Gnatali foi escrevendo canções e, quando decidiu gravá-las, já tinha em mãos um conjunto que cobria um arco largo de tempo — músicas compostas desde o fim da primeira década dos anos 2000, com uma retomada mais intensa de 2023 e 2024.
Gnatali cresceu entre referências que ajudam a explicar seu caminho como compositor.
“A primeira influência que me vem na cabeça é a dos meus pais”, conta. “De um lado eu tinha minha mãe, que adorava Jovem Guarda, Beatles. Botava a fita da trilha sonora do filme ‘Help’, que além das canções tinha coisas instrumentais lindas. Lembro até hoje, foi a primeira vez que ouvi Beatles”.
O outro lado da família não era menos musical. Seu pai é sobrinho do maestro e compositor Radamés Gnattali — arranjador fundamental da era de ouro da música brasileira, celebrado por nomes como Tom Jobim, Pixinguinha, Villa-Lobos e Cartola.
“E todos os irmãos do Radamés, incluindo meu avô, eram músicos também”. A essa bagagem familiar se juntariam o ouvido atento de quem desde cedo pegava melodias com facilidade, a formação no violão, o estudo na Escola Portátil de Música e uma prática de composição que foi amadurecendo sem pressa, até que as canções começassem a pedir para serem registradas. O resultado se mostra agora
A divisão em dois EPs veio de uma sugestão de Kassin, para resolver as tensões do repertório, dividido entre canções que transitavam em dois universos. Em vez de diluir as diferenças num álbum, Gnatali preferiu assumi-la como parte de sua natureza.
“Eu tenho esses dois lados, uma dualidade que se manifesta em muitas esferas da minha vida. De produzir muito, mas também ter a cabeça aérea. De trabalhar com desenho, mas também ser músico. De compor samba, mas também compor coisas na linha Beatles, em inglês. Estou aceitando isso e deixando correr”.
Essa dualidade, para Gnatali, não é indecisão, mas sim um princípio de movimento. Entre sombra e luz, verticalidade e horizontalidade, serra e mar, ele reconhece sua visão de mundo. “Eu gosto muito dessa ideia da dualidade como pulsação da vida. O inspirar e o expirar, a sístole e a diástole”, sintetiza.
Confira entrevista exclusiva:
Você chega a “Antes do sol” depois de uma trajetória já consolidada nas artes visuais e de muitos anos compondo em paralelo. Em que momento a música deixou de ser uma frente lateral da sua vida e passou a exigir um trabalho autoral que demanda mais tempo e planejamento?
Daniel Gnatali: Na prática, em junho de 2025, quando comecei a pensar na identidade visual do meu primeiro show (que foi solo, voz e violão). Foi naquele momento que entendi que tudo o que eu havia feito antes, desde o início das gravações, em dezembro de 2023, até fotos tiradas, posts, etc, eram parte de uma narrativa que eu estava começando a contar. E que a partir dali eu também seria demandado por esse caminho que eu estava começando a trilhar.
Seu nome carrega uma herança musical importante, com a ligação familiar com Radamés Gnattali, além de uma formação feita de escuta doméstica, violão e estudo na Escola Portátil de Música. Como você analisa essas formações que moldaram você: a herança, o estudo e a escuta.
Daniel Gnatali: A herança não teve peso. Meu pai (Roberto Gnattali, sobrinho do Radamés), além de compositor e maestro também lecionou na UNIRIO por mais de 30 anos, mas nunca me pressionou a ser músico. A única intervenção (cirúrgica rs) que ele fez foi me inscrever na Escola Portátil, depois de perceber que eu estava evoluindo nas aulas particulares de violão. Essa formação na Escola Portátil foi o principal pilar do meu violão atual, em termos de harmonia. Somou-se a isso uma paixão avassaladora por Jorge Ben nos anos seguintes, me levando a estudar sua rítmica de mão direita, e o aprendizado do dedilhado folk chamado "Travis Picking". Essas técnicas complementaram meu acervo e são a base da minha composição atual. Em termos de melodia e letra foi muito mais por "osmose". Ouvi e ouço muito os Beatles. Em geral, suas canções são surpreendentes. Usando majoritariamente acordes simples, a ordem deles junto à melodia dá esse resultado maravilhoso. Depois veio a poesia de Gil e Caetano e o espectro se expandiu. Me considero uma antena que recebe e transmite. Assim, a escuta, mesmo passiva, está na base da forma como abordo a composição.
Para quem ainda não conhece seu trabalho, como gosta de apresentá-lo em uma forma bem didática e para um público geral?
Daniel Gnatali: Meu som é original, com foco na identidade. Transito sem medo pelo folk e pela MPB. Escrevo baladas e xotes, sambas e country-songs, rocks e baiões. Me permito ousar nesse sentido e tenho como grandes referências Jorge Ben e Raul Seixas, que misturaram a MPB com o rock de forma brilhante e ao mesmo tempo natural (o samba e o baião, respectivamente). O que me lembra também essa mesma qualidade do Radamés, de compor sambas e choros, mas também sinfonias e sonatas. Não me comparo a ninguém, mas aprecio esse tipo de "fusão" e gosto de explorar isso na minha música.
Antes mesmo do lançamento do EP, uma canção sua já havia recebido cinco prêmios em festivais em 2025, e agora você apresenta esse trabalho ao vivo em São Paulo cercado de músicos e convidados de peso. O que esse momento diz sobre o estágio da sua chegada pública como cantor e compositor?
Daniel Gnatali: É um super sinal verde, que também uso como farol. Me sinto grato por essa recepção positiva e estou animado. Mas sei onde quero chegar e tenho noção da distância. Entendo que tudo o que faço, da composição, dos premios, até responder essa entrevista, é um tijolinho que coloco na estrada. E me sinto feliz por estar construindo. A partir disso novos caminhos vão se abrindo.
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