Rei do Pop: Michael chega aos cinemas brasileiros

Alerta de spoiler! ASetlist foi convidada à assistir a pré-estreia de Michael, filme biográfico que revive a jornada do maior ícone da música mundial.

Estrelado por Jaafar Jackson e dirigido por Antoine Fuqua o filme sobre Michael percorre desde o início dos Jackson 5, nos anos 1960, até as transformações que marcaram sua carreira solo e culminaram nas eras Off the Wall, Trillher e Bad, onde sua identidade artística já se consolidava com força global.

Apesar das críticas negativas vindas de Hollywood e das comparações inevitáveis com Bohemian Rhapsody — protagonizado por Rami Malek ao retratar Freddie Mercury — o longa sobre Michael deixa claro que está longe de esgotar sua história. O recorte apresentado pode soar apressado para alguns, mas a complexidade de sua trajetória dificilmente caberia em apenas duas horas de duração, o que torna essa escolha narrativa mais compreensível do que problemática.

Com uma fotografia impecável, o filme aposta em um roteiro que suaviza certos traços da personalidade de Michael, moldando-o sob a ótica de uma figura sensível, marcada por uma infância interrompida pela pressão e ambição paterna.

É, no mínimo, frustrante a superficialidade com que o filme trata o abrandamento dos abusos cometidos por Joseph Jackson. A narrativa suaviza um histórico amplamente relatado como muito mais severo, marcado por episódios de violência física e psicológica impostos sob a justificativa de alcançar a perfeição artística. Ao atenuar essas camadas, a obra esvazia a complexidade da infância de Michael Jackson, que envolvia não apenas cobranças extremas, mas também dinâmicas de humilhação e intimidação.

Nesse contexto, Joseph Jackson emerge como figura central do conflito, retratado sob uma ótica crítica que evidencia sua condução rígida e utilitarista da carreira dos filhos. A narrativa sugere que sua visão sobre o talento infantil operava quase como uma engrenagem industrial, na qual o potencial artístico era convertido em produto.

Ainda assim, há momentos que conseguem romper essa superficialidade. A presença de Colman Domingo em cena provoca tensão imediata, enquanto a interpretação de Jaafar Jackson revela, com sensibilidade, o medo e a vulnerabilidade de Michael diante da figura paterna, oferecendo vislumbres mais densos de uma relação marcada pelo controle e pelo temor.

Ao espectador, constrói-se a percepção de um patriarca que tratava os filhos menos como indivíduos e mais como ativos financeiros, mantendo controle absoluto tanto sobre a dinâmica familiar quanto sobre a trajetória profissional de Michael Jackson. O desfecho da participação de Joseph Jackson na trajetória de Michael Jackson é marcado por um rompimento simbólico e impessoal: sua demissão como empresário, comunicada por meio de um fax.

O episódio evidencia não apenas a ruptura definitiva na relação profissional entre pai e filho, mas também reforça o distanciamento afetivo que permeou essa dinâmica ao longo dos anos, consolidando um momento de autonomia do artista frente à figura que, até então, exercia controle direto sobre sua carreira.

A mensagem inicial é direta: a obra trata, antes de tudo, da dificuldade de Michael em se desvincular de sua família e construir sua própria identidade artística e pessoal.


Apesar de não explorar tanto a personalidade de Michael, o filme demonstra — ainda que de forma sutil — as fontes criativas que alimentavam Michael. Há uma construção interessante sobre sua percepção quase espiritual da arte, sugerindo que suas ideias vinham como algo divino, como se Deus lhe concedesse visões e sons antes de outros artistas, como Prince.

Ao mesmo tempo, o roteiro tangencia seu olhar atento para o mundo ao redor, incluindo referências ao contexto urbano e às dinâmicas de violência e gangues, elementos que influenciavam sua forma de narrar conflitos, dor e realidade em seus álbuns e o inspirou em videoclipes como Beat It, a estética do disco Bad. Além de culminar ainda mais em canções que tratam sobre conflitos mundiais, a busca pela paz e o amor, algo que o Michael pregava firmemente durante toda sua carreira.

A biografia se organiza em quatro atos bem definidos. O primeiro retrata a infância de Michael e seus irmãos, destacando o sucesso inicial dos Jackson 5 e a rigidez de seu pai. O segundo mergulha na solidão de um jovem que teve sua infância sacrificada pela fama precoce. O terceiro apresenta um Michael adulto, ainda emocionalmente preso à família, dividido entre o afeto pela mãe e o amadurecimento dos irmãos, enquanto tenta resgatar fragmentos de uma infância perdida.

Por fim, o quarto ato marca sua ruptura definitiva: ao deixar os Jackson 5, demitir o pai como empresário e assumir o controle de sua carreira, Michael encara o peso da própria independência e se posiciona como um artista negro que não apenas ocupa espaço na indústria musical, mas redefine seus limites.


O enredo se aprofunda em pontos específicos da trajetória de Michael Jackson, como o marco histórico de se tornar o primeiro artista negro a ter um videoclipe amplamente exibido pela MTV, além do impacto do acidente durante as gravações de um comercial da Pepsi — episódio que o levou a direcionar a indenização recebida ao hospital onde foi tratado, evidenciando um gesto de caráter humanitário.

No entanto, a narrativa se mostra superficial ao abordar aspectos mais complexos e sensíveis de sua vida pessoal. Temas como saúde mental, o diagnóstico de vitiligo, as relações familiares — especialmente com os irmãos —, sua espiritualidade e o desgaste com as turnês, frequentemente mencionadas pelo próprio artista como fonte de insatisfação, são tratados de forma pouco aprofundada.

Soma-se a isso a ausência de uma discussão mais consistente sobre as cirurgias estéticas, frequentemente associadas a inseguranças alimentadas por críticas recorrentes de Joseph Jackson durante sua infância. O mesmo ocorre com as controvérsias que marcaram sua imagem pública.

Nesse recorte, o filme opta por não explorar com a devida complexidade possíveis traços comportamentais associados à chamada Síndrome de Peter Pan, limitando-se a sugestões superficiais em vez de uma análise mais crítica e estruturada.


“A história continua…” surge como o principal elemento de impacto ao final do longa. Embora siga uma estrutura linear, Michael se revela uma obra incompleta do ponto de vista narrativo, encerrando-se sem um desfecho definitivo. O recorte temporal parte dos primeiros anos de ascensão e se estende até a era de Bad, indicando, de forma explícita, que a trajetória de Michael Jackson ainda será explorada em produções futuras.

Nesse sentido, o filme opta por retratar apenas um fragmento da vida do artista, priorizando a construção de sua imagem como performer e inovador. Há um foco constante nas apresentações, no domínio de palco e na ruptura estética que consolidaram o chamado “Rei do Pop”, enquanto os conflitos familiares e pessoais aparecem como pano de fundo — presentes, mas frequentemente subordinados ao espetáculo.

E aí, o que achou do filme? Fala pra gente!

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