Antes de abrir para o Iron Maiden, o Alter Bridge apresenta uma nova fase ao público brasileiro

Com um álbum homônimo lançado em 2026 e uma nova turnê mundial, o grupo de Myles Kennedy e Mark Tremonti chega ao Brasil vivendo outro capítulo de sua trajetória

Créditos: Reprodução

Quando o Alter Bridge subir ao palco do Nubank Parque, em São Paulo, antes do Iron Maiden, em 25 e 27 de outubro, a banda estará diante de um público que provavelmente chegou ao local por motivos diferentes. Para alguns, será a oportunidade de finalmente assistir de perto a um dos principais nomes do hard rock contemporâneo. Para outros, será o reencontro com uma banda que acompanha há mais de duas décadas. E haverá ainda quem conheça o grupo principalmente pela voz de Myles Kennedy ou pelas guitarras de Mark Tremonti. O ponto em comum entre essas experiências é que o Alter Bridge não chega ao Brasil apenas como atração de abertura. Chega em meio a uma nova fase de sua própria história, com um álbum homônimo lançado em janeiro de 2026 e uma turnê mundial que recoloca a banda no centro de seu próprio repertório.

Formado em 2004, o Alter Bridge nasceu da parceria entre Tremonti, Brian Marshall e Scott Phillips, então integrantes do Creed, e Myles Kennedy, que assumiu os vocais. A formação estabeleceu desde o primeiro momento uma combinação que continuaria sendo fundamental para a identidade do grupo: de um lado, a guitarra de Tremonti, marcada por riffs pesados, solos e uma abordagem que transita entre o hard rock e o metal; do outro, a voz de Kennedy, capaz de passar de passagens mais contidas a refrões de grande alcance melódico. O resultado apareceu já em One Day Remains, primeiro álbum da banda, lançado em 2004, com músicas como “Open Your Eyes”, “Metalingus” e “Broken Wings” estabelecendo uma linguagem que seria desenvolvida nos discos seguintes.

Se One Day Remains apresentou o Alter Bridge ao público, Blackbird, de 2007, ajudou a definir a dimensão que a banda poderia alcançar. O segundo álbum aprofundou o equilíbrio entre peso, melodia e estruturas mais elaboradas, enquanto a faixa-título se transformou em uma das composições mais reconhecidas de seu catálogo. O disco também estabeleceu uma dinâmica particularmente importante para o grupo: a capacidade de alternar músicas construídas para grandes refrões com momentos instrumentais em que Tremonti e Kennedy dividem o protagonismo das guitarras. “Blackbird”, “Rise Today”, “Come to Life” e “Watch Over You” passaram a ocupar espaços diferentes dentro da identidade da banda, mostrando que o Alter Bridge não dependia de uma única fórmula para construir sua sonoridade.

A partir dali, a discografia passou a funcionar como uma sequência de ajustes dentro de uma identidade que já estava estabelecida. AB III, de 2010, trouxe uma atmosfera mais sombria e reflexiva; Fortress, de 2013, ampliou a dimensão progressiva e instrumental das composições; The Last Hero, de 2016, manteve a escala de arena e colocou novamente o peso das guitarras ao lado de temas de caráter mais abrangente. Depois vieram Walk the Sky, de 2019, e Pawns & Kings, de 2022, mantendo a formação composta por Kennedy, Tremonti, Marshall e Scott Phillips e consolidando uma trajetória marcada por sucessivos ciclos de gravação e turnê. O próprio catálogo oficial da banda organiza essa sequência de discos como parte de uma trajetória contínua, que agora chega ao oitavo álbum de estúdio.

Essa estabilidade, entretanto, nunca significou imobilidade. Uma das particularidades do Alter Bridge está justamente na existência de projetos paralelos que fazem com que seus integrantes também sejam reconhecidos individualmente. Tremonti desenvolveu uma carreira solo extensa, enquanto Kennedy construiu sua própria discografia e também ganhou projeção como vocalista do projeto de Slash. Ao longo dos anos, Brian Marshall e Scott Phillips também estiveram envolvidos em outros trabalhos. O resultado é uma banda formada por músicos com trajetórias próprias, mas que continuam retornando ao Alter Bridge para construir algo que não existe da mesma maneira em seus projetos individuais.

É nesse contexto que o álbum Alter Bridge, lançado em 9 de janeiro de 2026 pela Napalm Records, ganha um significado particular. Em vez de receber um título que remeta a uma nova fase conceitual ou a uma imagem específica, o oitavo disco simplesmente leva o nome da própria banda. São 12 faixas e pouco mais de uma hora de música, com “Silent Divide” abrindo o trabalho e “Slave to Master” encerrando a sequência em uma composição de mais de nove minutos. O disco também marca o primeiro álbum inédito do grupo desde Pawns & Kings, de 2022.

O título homônimo permite uma leitura interessante justamente porque o Alter Bridge não precisava reapresentar ao público quem é a banda. Depois de mais de 20 anos de carreira, o nome já carrega uma linguagem reconhecível. O novo disco parece partir desse ponto de segurança para reafirmar elementos que se tornaram centrais em sua música, mas sem abandonar a possibilidade de ampliar determinadas características. Críticas publicadas após o lançamento identificaram no álbum uma combinação entre riffs pesados, melodias amplas e estruturas mais ambiciosas, enquanto outras destacaram a sensação de síntese de diferentes fases da carreira.

A faixa de abertura, “Silent Divide”, funciona como uma espécie de declaração imediata dessa identidade. O riff de Tremonti coloca a música em movimento antes de Kennedy assumir o centro da composição, enquanto a produção mantém a escala que o Alter Bridge construiu ao longo dos anos. Em outras faixas, o grupo explora diferentes intensidades sem abandonar a combinação entre peso e melodia. “Trust In Me” amplia a participação vocal de Tremonti, “Hang By a Thread” reduz a velocidade para uma abordagem mais acústica e “Slave to Master” leva o disco novamente para uma estrutura épica, com mais de nove minutos de duração. A variedade não representa uma ruptura com o Alter Bridge conhecido pelo público, mas evidencia como a banda consegue trabalhar dentro de uma linguagem própria sem precisar repetir exatamente o mesmo disco.

A recepção crítica também colocou o novo trabalho dentro dessa perspectiva de continuidade. A Kerrang! descreveu o álbum como uma demonstração renovada da força e da dimensão emocional do grupo, enquanto a MetalTalk destacou a permanência de elementos que acompanham a banda há duas décadas. Há, portanto, uma leitura recorrente nas avaliações do disco: o Alter Bridge não está tentando começar do zero em 2026. Está utilizando o conhecimento acumulado em mais de 20 anos para reafirmar uma identidade que já existe.

Essa ideia ganha outra dimensão quando o novo álbum é colocado ao lado do momento profissional de seus integrantes. O período entre Pawns & Kings e o novo disco incluiu outras atividades dos músicos, entre elas o retorno do Creed aos palcos, enquanto Kennedy também manteve sua trajetória solo. Quando o Alter Bridge voltou a se reunir para trabalhar em seu oitavo álbum, portanto, a banda não estava simplesmente retomando uma agenda interrompida. Seus integrantes traziam experiências recentes de outros projetos para dentro de um grupo cuja identidade já havia sido construída ao longo de duas décadas.

É justamente essa combinação entre continuidade e renovação que torna a chegada ao Brasil especialmente interessante. O Alter Bridge não fará uma passagem isolada pelo país para acompanhar o Iron Maiden. A banda está em uma turnê mundial própria e chega à América do Sul com um álbum recém-lançado, além de disponibilizar inclusive uma experiência oficial de VIP para a etapa sul-americana, com acesso à passagem de som, encontro com os integrantes e fotografia. O próprio calendário do grupo confirma que a passagem brasileira faz parte de uma operação internacional maior, e não de uma participação pontual criada exclusivamente para os shows do Maiden.

Ao mesmo tempo, dividir o palco com o Iron Maiden coloca o Alter Bridge diante de uma circunstância particularmente simbólica. São duas bandas de gerações diferentes, mas que compartilham uma característica importante: construíram carreiras baseadas na força do repertório e na experiência ao vivo. Para o Maiden, a Run For Your Lives representa a celebração de 50 anos de história e revisita seus nove primeiros álbuns. Para o Alter Bridge, 2026 representa mais de duas décadas de trajetória e o lançamento de um disco que leva o próprio nome da banda. Uma olha para a origem; a outra chega ao palco apresentando aquilo que considera ser sua identidade no presente.

Postar um comentário

0 Comentários