Myles Kennedy e Mark Tremonti: duas vozes criativas que sustentaram duas décadas de Alter Bridge

A parceria entre vocal e guitarra se tornou uma das principais marcas do grupo, atravessando diferentes fases, discos e transformações do rock de arena

Créditos: Reprodução

Quando o Alter Bridge surgiu em 2004, havia uma história anterior impossível de ignorar. Mark Tremonti, Brian Marshall e Scott Phillips vinham do Creed, banda que havia alcançado enorme projeção internacional, enquanto Myles Kennedy chegava de outra trajetória, construída principalmente com o The Mayfield Four. Os caminhos já haviam se cruzado antes: o Mayfield Four chegou a abrir shows do Creed, e foi justamente nesse período que Tremonti e Kennedy se conheceram. Anos depois, quando Tremonti, Phillips e Marshall decidiram seguir adiante com um novo projeto, Kennedy foi convidado para assumir os vocais. O que poderia ter sido apenas uma reorganização de peças conhecidas acabou criando uma banda com outra identidade.

A diferença fundamental estava na complementaridade. Tremonti já tinha uma assinatura consolidada como guitarrista e compositor, construída desde os primeiros trabalhos do Creed, mas o Alter Bridge lhe ofereceu espaço para explorar um lado mais pesado e tecnicamente ambicioso de sua escrita. Kennedy, por sua vez, trouxe uma experiência vocal muito diferente e uma relação igualmente forte com a guitarra. Ele não entrou na banda apenas para preencher o espaço deixado por outro cantor. Sua maneira de construir melodias, harmonias e frases vocais passou a interferir diretamente na arquitetura das músicas, enquanto sua própria experiência como guitarrista ampliava o diálogo com Tremonti. O resultado foi uma banda em que voz e guitarra não funcionam como elementos isolados, mas como duas linguagens que constantemente se respondem.

Myles Kennedy talvez seja o elemento mais imediatamente reconhecível quando se pensa na voz do Alter Bridge. Seu alcance permite que a banda transite entre momentos intimistas e passagens de grande intensidade sem precisar abandonar a melodia. Existe força, mas ela raramente depende apenas do volume. Em músicas como “Blackbird”, “Watch Over You”, “Words Darker Than Their Wings” ou “This Side of Fate”, a interpretação vocal é responsável por conduzir mudanças de clima que poderiam facilmente se perder em uma produção baseada apenas em peso. O próprio Kennedy resume seu processo criativo a partir da melodia: antes de pensar na demonstração de alcance, existe a necessidade de encontrar uma linha vocal que sustente a música.

Essa característica também ajuda a entender por que Kennedy conseguiu construir uma carreira paralela tão particular. Desde 2010, ele passou a trabalhar com Slash e os Conspirators, além de desenvolver uma discografia solo que explora blues, folk, hard rock e diferentes aspectos de sua identidade como compositor. Seu trabalho fora do Alter Bridge ampliou seu vocabulário musical sem apagar aquilo que ele representa dentro da banda. No próprio discurso do músico, a experiência de trabalhar em diferentes contextos serve como estímulo criativo. Em vez de reduzir sua identidade a um único projeto, os diferentes ambientes parecem alimentar maneiras distintas de escrever, cantar e tocar.

Tremonti percorreu um caminho igualmente movimentado, embora partindo de uma função diferente. No Alter Bridge, ele é o guitarrista que frequentemente estabelece a fundação física da música. Seus riffs podem ser densos, sincopados, construídos em afinações alternativas ou pensados para criar um determinado tipo de movimento antes mesmo de a voz entrar. Os solos, por sua vez, não aparecem simplesmente como demonstrações técnicas colocadas entre um refrão e outro. Tremonti costuma tratá-los como pequenas composições dentro das próprias músicas, uma abordagem que ajuda a explicar por que suas guitarras têm tanto peso na identidade do grupo. Em entrevista, ele descreveu justamente essa preocupação em fazer com que cada solo tenha sua própria narrativa, especialmente quando existe uma troca direta com Kennedy.

E há uma particularidade importante nessa relação: Myles também é guitarrista. Isso muda a conversa. Tremonti não precisa explicar uma música apenas para um vocalista que receberá uma base pronta. Kennedy entende construção de riff, afinação, harmonia, dinâmica e arranjo porque também participa desse vocabulário. Em algumas músicas, inclusive, os dois acabam ocupando espaços instrumentais diferentes dentro da mesma composição. No álbum The Last Hero, Tremonti já falava sobre essa troca como uma das características da parceria, destacando que Kennedy vinha sendo incentivado a mostrar cada vez mais seu lado guitarrista.

A composição do Alter Bridge ajuda a revelar o quanto essa complementaridade é estrutural. Os dois não costumam chegar ao estúdio com uma música completamente fechada para que o outro simplesmente execute. Mark e Myles desenvolvem ideias separadamente, gravam demos, trocam materiais e depois começam a conectar partes. Um pode chegar com um riff e o outro apresentar um refrão; uma música pode começar com uma ideia de Kennedy e ganhar uma ponte de Tremonti, ou acontecer exatamente o contrário. Em trabalhos mais recentes, ambos explicaram que continuam compondo dessa maneira, cada um desenvolvendo suas próprias demos antes de levar o material ao restante da banda.

Essa divisão não significa uma disputa pela autoria. Pelo contrário. Ao longo dos anos, eles desenvolveram uma espécie de confiança criativa que permite que uma ideia seja modificada sem que isso seja tratado como perda de identidade. Tremonti já descreveu a parceria como uma colaboração em que cada música passa pelas contribuições dos dois, enquanto Kennedy também destacou que o tempo de convivência fez com que os dois aprendessem a confiar no processo. É uma diferença importante entre simplesmente ter dois compositores em uma banda e construir uma linguagem conjunta a partir deles.

O próprio Blackbird, álbum de 2007, ajuda a marcar essa evolução. Em entrevista realizada durante a divulgação do disco homônimo de 2026, Tremonti afirmou que Blackbird foi o momento em que o Alter Bridge realmente encontrou a direção que definiria seu futuro. O primeiro álbum, segundo ele, ainda carregava o caráter de descoberta entre músicos que estavam entendendo como aquela nova formação funcionaria. Em Blackbird, essa experiência já havia se transformado em identidade. Não por acaso, é justamente nesse disco que aparecem algumas das músicas que melhor representam a combinação entre o peso de Tremonti e a expressividade de Kennedy.

A relação fica ainda mais interessante quando os dois deixam o Alter Bridge temporariamente para trabalhar em outros projetos. Tremonti mantém sua própria banda, na qual assume também os vocais principais, enquanto Kennedy trabalha com Slash e desenvolve sua carreira solo. Isso cria uma situação pouco comum para uma parceria tão longeva: os dois continuam sendo músicos ativos fora dela. Em vez de fazer com que suas identidades se dissolvam dentro do Alter Bridge, os projetos paralelos oferecem outros ambientes para testar ideias, técnicas e formas de composição. O próprio Tremonti já associou essa multiplicidade a uma maneira de manter a criatividade em movimento, enquanto Kennedy encontrou em diferentes colaborações oportunidades para ampliar seu repertório.

Existe, portanto, uma espécie de equilíbrio entre independência e dependência criativa. Myles não precisa de Tremonti para existir como músico, assim como Tremonti não depende de Kennedy para sustentar uma carreira autoral. Mas o Alter Bridge depende da combinação específica dos dois. É quando o riff encontra uma melodia que não seguiria necessariamente o caminho mais óbvio, quando uma linha vocal recebe uma guitarra que aumenta sua tensão ou quando um solo responde a uma frase cantada que a identidade da banda aparece com maior nitidez.

No álbum Alter Bridge, lançado em janeiro de 2026, essa dinâmica continua presente. O oitavo disco de estúdio da banda foi construído novamente a partir da colaboração entre Kennedy e Tremonti, com os dois apresentando demos completas e posteriormente trabalhando o material com Brian Marshall e Scott Phillips. Em “Silent Divide”, por exemplo, a música coloca lado a lado elementos que já fazem parte do DNA do grupo, como riffs pesados, melodias expansivas e intervenções de guitarra que funcionam como extensão da própria voz. A produção também registra uma banda consciente de seu próprio repertório, mas ainda interessada em experimentar dentro dele.

Há algo especialmente revelador no fato de que, depois de mais de duas décadas, os dois ainda falem sobre o Alter Bridge como um espaço de descoberta. Eles já sabem o que o outro é capaz de fazer. Conhecem suas referências, seus limites, seus vícios de composição e suas soluções recorrentes. Ainda assim, continuam encontrando maneiras de deslocar essas fronteiras. A produção do novo disco no 5150 Studios, espaço associado à história de Eddie Van Halen, foi tratada pelos próprios músicos como uma experiência que elevou o nível de exigência sobre o trabalho. Tremonti falou sobre a necessidade de estar preparado diante daquele ambiente, enquanto Kennedy levou para o disco elementos de sua própria linguagem guitarrística, incluindo técnicas que remetem a influências como John Sykes.

É por isso que a história de Myles Kennedy e Mark Tremonti dentro do Alter Bridge não cabe muito bem na ideia de “vocalista e guitarrista”. Os papéis existem, evidentemente, mas são insuficientes para explicar a relação. Tremonti escreve melodias, Kennedy escreve riffs. Kennedy conduz a música com a voz, Tremonti também canta. Um constrói uma ideia e o outro pode desmontá-la para encontrar uma solução melhor. Os dois carregam referências diferentes e, justamente por isso, conseguem produzir uma terceira identidade quando trabalham juntos.

Talvez essa seja a razão pela qual a banda conseguiu atravessar mais de vinte anos sem depender de uma única fórmula. O Alter Bridge mudou de tamanho, de repertório, de produção e de contexto, mas manteve no centro duas pessoas que aprenderam a transformar diferenças em linguagem comum. Quando o grupo subir ao palco no Brasil ao lado do Iron Maiden, antes que a primeira guitarra de Tremonti encontre a voz de Kennedy diante de uma arena, haverá uma história inteira de colaboração por trás daquele encontro. E ouvir o Alter Bridge ao vivo também será, de certa forma, ouvir o resultado de duas assinaturas muito diferentes que descobriram, há mais de duas décadas, como escrever uma mesma música.

Postar um comentário

0 Comentários