Com 5 faixas, lançamento abraça a vulnerabilidade para refletir sobre questões da vida cotidiana e a constante busca pelo conforto
Muitas vezes, ir pra casa não é apenas sobre a ideia de lar, mas sobre o espaço simbólico em que encontramos conforto. A busca constante por esse não lugar em meio às inquietações e aos hábitos do eu é o ponto de partida de “quero ir pra casa”, primeiro EP da banda mineira ursamenor. O lançamento chega às plataformas digitais em 15 de julho.
Com cinco faixas, o EP pondera sobre o contraste entre a nostalgia e um futuro que parece ser inalcançável, atravessando também a reflexão constante de querer ser quem somos em meio ao caos cotidiano. “O lançamento conta um pouco sobre nossas histórias individuais, que envolvem conflitos sobre um ‘eu’ que nunca se conforma em ser, sobre como nossas relações nos constroem e nos destroem, sobre a monotonia dos dias numa rotina maçante e, sobretudo, sobre a vontade de inventar um lugar, que não este, para existir; daí a ideia de ir para casa. Não é um lugar para onde se retorna; então, o nome do EP, por si só, implica uma busca”, explica Mariana Coura, guitarrista da ursamenor. “Para além disso, podemos dizer que o EP também conta nossa história enquanto banda, como se estivéssemos nos apresentando uma para a outra, dispostas a revelar até as partes feias, num estado de vulnerabilidade que acreditamos, inclusive, ser o motivo de darmos tão certo enquanto trio”.
Camila Silva, também guitarrista do trio, conta que o processo criativo do EP começou antes mesmo da formação da banda: “A gente começou a compor sobre a mesma coisa antes mesmo de se conhecer. Quando a gente se ouviu, sabíamos que era o momento de fazer algo juntas. As músicas eram esboços, não estavam completamente montadas e acabaram se transformando nessas versões do EP”. Durante o refinamento das composições e gravações do trabalho, o grupo acionou referências do shoegaze, dreampop e emo, como as bandas terraplana, Fin Del Mundo e Adorável Clichê. “Acho que nos inspiramos em bandas, e artistas em geral, que são honestos com o que fazem, no sentido de fazer o que querem e acreditam com muita vontade”, complementa Mariana Coura.
“quero ir pra casa”, primeira compilação da ursamenor, é um lançamento realizado por meio do selo BHC - Belo Horizonte Central, braço do Estúdio Central Belo Horizonte, em parceria com a YB Music.
Próximos passos
Em julho, a ursamenor realiza a primeira parte da turnê de “quero ir pra casa”. A banda tem datas confirmadas em Vitória, Vila Velha, Juiz de Fora, São Paulo, Maringá, Curitiba e Belo Horizonte. Iara Dias, baixista da banda, conta que a principal expectativa para a série de shows é fortalecer conexões: “Esperamos que as pessoas se identifiquem com a mensagem que desejamos transmitir e com o nosso processo criativo como um todo. Se existir alguém lá fora com a mesma sensação de querer ir pra casa como a gente, vai ser uma conexão e um laço muito bacana que iremos construir com quem nos escuta. Estamos ansiosas para que as pessoas possam conhecer a gente através das nossas músicas, mas também quem somos fora dela. Também queremos conhecer quem já tem nos ouvido e saber o que eles esperam da gente”.
Faixa a faixa
sei muito bem
A faixa surgiu a partir do riff inicial, criado despretensiosamente por Mariana. “Durante muito tempo, a música ficou congelada porque eu não conseguia enxergar uma melodia vocal para ela, muito menos uma letra. Um dia, passando de carro pela UFMG, olhei para o muro azul da Faculdade de Medicina Veterinária e tive uma espécie de epifania que deu origem aos versos: ‘as coisas tinham outra cor, outro sabor, outro lugar / me diz se o que mudou foi o tempo ou o meu olhar’”, comenta. “Isso aconteceu porque me lembrei de que, em 2012, quando passei no vestibular, saí da minha cidade natal e vim para Belo Horizonte, que só conheci de fato quando me mudei. Enquanto explorava o campus, míope que sou, na primeira vez em que vi aquele muro azul, pensei que fosse um lago e achei a paisagem linda. Chegando mais perto, percebi que era apenas um muro e ri de mim mesma”.
“Foi desse fluxo de pensamentos que a letra nasceu, permeada por memórias e pela forma como essas memórias nos contam. Quando mostrei a música para a banda, a Camila acrescentou o riffzinho do final e comentou que ele estava "meio Strokes". Aquilo me fez acreditar que a vida e a arte realmente se constroem por uma série de coincidências: naquela época, eu costumava ir para as aulas usando uma camiseta vermelha do The Strokes”.
desvio
“Desvio surgiu a partir de tentativas de trabalhar com novas afinações. Foi feita, principalmente, para falar sobre o medo de passar por situações parecidas que parecem ser as mesmas. É o medo de não aprender nunca e então se guardar para não sofrer, mas saber que viver é estar exposto e que o tempo vai te atropelar, independente de tudo, e você não pode fazer nada, apenas aceitar e esperar pelo melhor”.
da janela
A música é quase uma narrativa: começou a ser composta em um quarto, mas ganhou forma de fato dentro do carro, nas distâncias da BR-381 e da Rodovia Fernão Dias. Olhar para a janela denuncia a fragmentação e a limitação de um corpo que é língua e que, na solidão, busca dolorosamente se comunicar. “da janela” permanece com a testa encostada no vidro, criando um ciclo obsessivo entre ser e suportar aquilo que se é, na esperança de fazermos as pazes com as lacunas que nossos pés e nossas mãos não alcançam nessa dança entre desejos que às vezes são nossos e às vezes pertencem aos outros.
meia volta
“meia volta” expressa um sentimento coletivo proveniente da correria do dia a dia: o desafio de manter a sanidade no vai e vem da cidade e com a relação que desenvolvemos com o trabalho, por exemplo. Estar com as pessoas que amamos, amar por si só e ser feliz se tornaram coisas subversivas. Não deixar essas obrigações engolirem nossa individualidade é se impor.
sombra
“Pensei que queria falar sobre amor e, de repente, me dei conta de que estava cantando versos antes mesmo de escrevê-los, a ponto de precisar anotá-los rapidamente para não perder o que surgia e que, naquele momento, me parecia fazer sentido. Foi então que percebi que estava, de certa forma, descrevendo uma cena específica: eu tinha 14 anos e ouvia Northern Downpour, do Panic! at the Disco, enquanto observava minha mãe conversando com a mãe dela diante de uma fogueira. Visitando esse momento depois de muitos anos, me vi filha, me vi neta, me reconheci naquelas duas mulheres e, ao mesmo tempo, por causa delas e por elas, desejei negar parte desse legado. Assim, Sombra trata da ancestralidade, do medo de perder quem amamos e aquilo que somos, da passagem de um tempo que nos acerta e, inevitavelmente, também nos atravessa”.
Conheça a ursamenor
Formada em Belo Horizonte, a ursamenor está em atividade desde 2024 e é formada por Camila Silva, Iara Dias e Mariana Coura. A banda nasceu a partir da conexão entre as integrantes e do desejo mútuo de se expressar através da música. Guiada a partir de referências como Fin Del Mundo e Paramore e inspirada pelas reflexões que investigam o sonho, o tempo e o espaço, a ursamenor tem construído um universo próprio e etéreo em meio à efervescente cena musical alternativa de Belo Horizonte.
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