Sepultura, a banda brasileira que levou o metal para o mundo volta ao Rock in Rio para celebrar seu próprio legado

 Em sua turnê de despedida, grupo mineiro retorna ao festival que ajudou a transformar sua história em fenômeno internacional e revisita mais de quatro décadas de uma das maiores trajetórias do metal brasileiro

Créditos: Stephanie Veronezzi

Poucas bandas brasileiras carregam uma relação tão profunda com o Rock in Rio quanto o Sepultura. Mais de quatro décadas depois de sua formação em Belo Horizonte, o grupo que ajudou a colocar o metal brasileiro no mapa internacional retorna à Cidade do Rock em um momento particularmente simbólico: a celebração de uma trajetória que chega ao fim com a turnê de despedida Celebrating Life Through Death.

Formado em 1984 pelos irmãos Max e Igor Cavalera, o Sepultura nasceu em um cenário distante dos grandes centros da indústria fonográfica. A partir de Belo Horizonte, construiu uma sonoridade inicialmente influenciada pelo thrash e pelo death metal e, pouco a pouco, desenvolveu uma identidade própria que ultrapassaria as fronteiras brasileiras.

O reconhecimento internacional veio ainda nos primeiros anos, mas foi a sequência de trabalhos lançados a partir do final da década de 1980 que consolidou o grupo como um dos principais nomes do metal mundial. Álbuns como Beneath the Remains, de 1989, e Arise, de 1991, colocaram o Sepultura no circuito internacional e abriram espaço para uma banda brasileira em um mercado até então dominado principalmente por artistas europeus e norte-americanos.

A relação com o Rock in Rio também faz parte dessa história. O Sepultura participou de diferentes edições do festival e se tornou um dos representantes brasileiros mais associados à presença do metal na programação. Em 1994, a banda voltou ao evento ao lado de nomes como Black Sabbath e Alice in Chains, em uma época em que já havia alcançado projeção mundial.

O capítulo seguinte seria ainda maior. Em 1996, o Sepultura lançou Roots, álbum que transformou a relação entre metal e música brasileira em uma de suas experiências mais radicais. Produzido por Ross Robinson, o disco incorporou elementos da música indígena, percussão brasileira e referências culturais que ampliaram a identidade do grupo sem abandonar a agressividade construída ao longo da carreira.

A faixa “Roots Bloody Roots” se tornou um dos maiores símbolos dessa fase e permanece entre as músicas mais reconhecidas da banda. O disco também contou com a participação do músico baiano Carlinhos Brown em “Ratamahatta”, reforçando a aproximação entre o metal e diferentes manifestações da música brasileira.

Ao longo dos anos seguintes, o Sepultura passou por mudanças importantes em sua formação. A saída de Max Cavalera, em 1996, e posteriormente de Igor Cavalera não impediu a continuidade da banda, que seguiu sua trajetória com Derrick Green nos vocais e Paulo Xisto no baixo, além de diferentes músicos nas guitarras e bateria ao longo dos anos.

Com Andreas Kisser como um dos principais responsáveis pela condução musical da formação posterior, o grupo lançou uma sequência de trabalhos que manteve o Sepultura ativo e relevante dentro do metal. Against, Nation, Dante XXI, A-Lex, Kairos, The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart e Machine Messiah estão entre os discos que marcaram essa segunda fase.

O álbum mais recente, Quadra, lançado em 2020, mostrou que a banda ainda era capaz de combinar agressividade, complexidade e elementos desenvolvidos ao longo de sua história. O trabalho chegou ao topo da parada de álbuns de hard rock da Billboard nos Estados Unidos e recebeu reconhecimento internacional.

Mas a etapa atual da carreira é marcada por uma decisão definitiva. Em 2024, o Sepultura anunciou que encerraria suas atividades após uma última turnê mundial. A série de apresentações foi batizada de Celebrating Life Through Death, uma referência à própria dimensão de despedida assumida pelo projeto.

No Rock in Rio, portanto, o show ganha um significado que ultrapassa a simples apresentação de um repertório. É a oportunidade de acompanhar uma das últimas performances de uma banda que passou mais de 40 anos construindo uma história que começou no underground brasileiro e chegou aos maiores palcos do mundo.

A importância do Sepultura para o metal nacional também pode ser medida pela influência exercida sobre gerações posteriores. Antes mesmo de o Brasil possuir uma cena de metal amplamente reconhecida internacionalmente, o grupo já fazia turnês pela Europa e pelos Estados Unidos, dividindo palcos com algumas das maiores bandas do gênero.

Essa trajetória ajudou a mudar a percepção sobre a produção pesada brasileira. O Sepultura deixou de ser apenas uma banda brasileira fazendo metal e passou a ser reconhecido como um dos nomes responsáveis por expandir as possibilidades do gênero em escala mundial.

No palco da Cidade do Rock, essa história deverá aparecer condensada em um repertório construído ao longo de diferentes períodos. Dos trabalhos mais extremos dos primeiros anos à experimentação de Roots e à produção mais recente, o setlist tem potencial para funcionar como uma retrospectiva de uma carreira que atravessou gerações sem abandonar a disposição para desafiar limites.

Para o público brasileiro, há ainda uma dimensão adicional. Assistir ao Sepultura em sua turnê de despedida significa testemunhar o encerramento de uma das histórias mais importantes do rock pesado produzido no país. Uma trajetória que começou em Belo Horizonte, atravessou continentes, influenciou músicos de diferentes gerações e ajudou a provar que o metal brasileiro poderia ocupar os mesmos palcos que seus maiores representantes internacionais.


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