Swallow the Sun transforma a escuridão em abrigo no Hangar 110

Banda finlandesa revisitou diferentes momentos da carreira em uma noite que uniu a melancolia de Shining ao peso e à força de seus clássicos

Créditos: Stephanie Ferreira/@instephanie

Na noite de 11 de agosto, o frio que tomava conta de São Paulo encontrou no Hangar 110 um cenário improvável para desaparecer. Do lado de dentro, a atmosfera já parecia anunciar o que viria a seguir: paredes escuras, iluminação baixa, o aspecto cru de uma casa que há quase três décadas se dedica à música pesada e alternativa e que, desde 1998, já recebeu mais de 10 mil apresentações. Para uma banda como o Swallow the Sun, acostumada a transformar tristeza, silêncio e contemplação em matéria-prima musical, dificilmente haveria um palco mais coerente.

Logo a casa estava cheia. O público ocupava a pista e o mezanino, criando uma espécie de calor coletivo que contrastava com a temperatura baixa registrada nos aplicativos. Quando Juha Raivio, Juho Räihä, Matti Honkonen, Juuso Raatikainen e Mikko Kotamäki finalmente subiram ao palco, a sensação era de que o inverno paulistano havia ficado do lado de fora. O ambiente se tornou caloroso pela resposta imediata de um público que aguardava há anos a oportunidade de experimentar ao vivo a melancolia particular de uma das bandas mais importantes do doom metal finlandês.

A escolha de “Innocence Was Long Forgotten” para abrir a apresentação não poderia ser mais significativa. Faixa que inaugura Shining, álbum lançado em 2024, ela apresenta uma das faces mais recentes do Swallow the Sun, em uma obra que marcou uma mudança de direção em relação à densidade emocional de trabalhos anteriores. O disco preserva a melancolia característica do grupo, mas trabalha com uma sonoridade mais aberta, melódica e luminosa, explorando uma ideia de beleza que existe mesmo em meio à dor.

Foi justamente essa nova fase que ganhou espaço considerável no repertório paulistano. Além da abertura, “Under the Moon & Sun”, “November Dust” e “MelancHoly” apareceram ao longo da noite, permitindo que Shining ocupasse seu lugar dentro da história da banda sem precisar apagar aquilo que veio antes. “MelancHoly”, em particular, carrega uma delicadeza quase contraditória ao peso associado ao Swallow the Sun. A música trata a melancolia não apenas como sofrimento, mas também como um lugar de conforto e beleza, uma característica que encontrou tradução especialmente poderosa ao vivo.

Mas se o objetivo era apresentar uma nova página, a banda jamais deixou de olhar para o próprio passado. “New Moon” trouxe de volta a atmosfera do álbum homônimo de 2009, enquanto “Don’t Fall Asleep (Horror, Part 2)” e “Out of This Gloomy Light”, ambas ligadas ao início da trajetória fonográfica do grupo, mostraram por que determinadas músicas permanecem tão importantes para quem acompanha a banda há décadas. “Hope” e “Falling World” ampliaram esse passeio pela discografia, até que “These Woods Breathe Evil” e, finalmente, “Swallow (Horror, Part 1)” encerrassem a apresentação em um dos pontos mais reconhecíveis de seu repertório.

A setlist, portanto, funcionou menos como uma retrospectiva tradicional e mais como uma conversa entre diferentes momentos do Swallow the Sun. O presente não tentou competir com o passado. Pelo contrário: Shining encontrou espaço ao lado de músicas que ajudaram a estabelecer a identidade da banda, enquanto os clássicos lembraram ao público de onde aquela sonoridade veio. A própria estrutura do repertório acompanhou essa lógica, começando com uma composição recente e terminando com “Swallow”, uma das faixas mais emblemáticas do grupo e uma das músicas mais executadas em sua história ao vivo.

No palco, a banda não precisou recorrer a excessos para criar impacto. O Swallow the Sun entende que sua força está justamente na capacidade de construir tensão sem pressa. Os instrumentos ocupam seus espaços com precisão, as guitarras de Juha Raivio e Juho Räihä estabelecem as camadas que sustentam as composições e a voz de Mikko Kotamäki transita entre a fragilidade das passagens melódicas e a brutalidade que emerge quando a música exige. 

Para esta jornalista, havia ainda uma camada particular naquela noite. Entre o trabalho de registrar a apresentação e a responsabilidade de observar cada detalhe, existia a experiência de finalmente ver de perto Juha Raivio, músico cuja trajetória havia se tornado objeto de estudo e admiração nos últimos meses. Por alguns instantes, a obrigação de captar imagens e informações dividiu espaço com algo muito mais simples: estar ali, presente de verdade. Em meio às luzes baixas do Hangar, acompanhar de perto a relação de Juha com a guitarra transformou a experiência profissional em uma memória pessoal difícil de separar da música.

Ao deixar o palco, o Swallow the Sun deixou no Hangar uma espécie de silêncio posterior, aquele que costuma surgir quando uma experiência intensa termina e o público ainda precisa de alguns minutos para voltar à realidade. E talvez seja justamente aí que esteja a sua força: na capacidade de provar que a tristeza também pode ser acolhedora, que o peso pode carregar beleza e que, às vezes, uma noite escura é exatamente o lugar onde a luz aparece com mais nitidez.

Confira a setlist completa:

  1. Innocence Was Long Forgotten
  2. Descending Winters
  3. New Moon
  4. Under the Moon & Sun
  5. Don't Fall Asleep (Horror, Part 2)
  6. Out of This Gloomy Light
  7. November Dust
  8. Hope
  9. MelancHoly
  10. Falling World
  11. These Woods Breathe Evil
  12. Deadly Nightshade
  13. Swallow (Horror, Part 1)

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