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Black Eyed Peas transforma nostalgia em pista de dança e reafirma conexão com o Brasil no Rock in Rio

Sem Fergie, trio revisitou os grandes sucessos da fase mais popular da carreira, mas encontrou no encontro com Papatinho e no funk brasileiro uma maneira de atualizar o espetáculo

Créditos: Márcio / @marcioreflynn para ASetlist

O Black Eyed Peas chegou ao Palco Mundo neste domingo (6) com uma missão que parecia simples, mas carregava uma questão inevitável: como apresentar um repertório construído em grande parte durante a era mais popular da formação com Fergie sem transformar o show em uma tentativa de reproduzir o passado? A resposta veio menos pela nostalgia pura e mais pela capacidade do grupo de transformar seus maiores sucessos em uma grande festa. Will.i.am, apl.de.ap e Taboo revisitaram músicas que definiram o pop dos anos 2000 e 2010, enquanto J. Rey Soul assumiu os vocais femininos e uma participação de Papatinho aproximou o espetáculo da música brasileira.

A apresentação aconteceu em um domingo já construído em torno da memória afetiva. Antes do Black Eyed Peas, Nelly havia levado o público de volta aos anos 2000, enquanto Barão Vermelho e Jota Quest trabalhavam, cada um à sua maneira, diferentes capítulos da música brasileira. Quando o trio americano subiu ao Palco Mundo às 21h20, portanto, a Cidade do Rock já estava preparada para uma noite em que reconhecer uma música nos primeiros segundos fazia parte da experiência. O Black Eyed Peas aproveitou essa condição desde o primeiro momento e abriu o repertório com “Let’s Get It Started”, antes de avançar por uma sequência de músicas que transformou o palco em uma pista de dança.

“Boom Boom Pow”, “Rock That Body”, “Pump It”, “The Time (Dirty Bit)”, “Where Is the Love?”, “My Humps”, “Meet Me Halfway” e “I Gotta Feeling” representam uma parcela importante da história comercial do grupo. São músicas que ajudaram o Black Eyed Peas a ultrapassar os limites do hip hop e se tornar um dos grandes fenômenos pop do século XXI. O repertório apresentado no Brasil percorreu justamente essa fase, mas sem abandonar completamente trabalhos mais recentes, mostrando que a banda ainda procura atualizar sua identidade mesmo quando o público naturalmente espera pelos hits.

Essa mistura entre passado e presente é importante para entender o show. O Black Eyed Peas poderia ter construído uma apresentação inteiramente baseada nos grandes sucessos associados à formação que incluía Fergie. Em vez disso, manteve a configuração atual e colocou J. Rey Soul em uma posição central dentro da performance. A cantora acompanha o grupo desde 2018 e participou de gravações e apresentações posteriores à saída de Fergie, tornando-se parte efetiva da fase mais recente da banda. Antes do show, Will.i.am havia reconhecido a falta que Fergie faz, mas também ressaltado a importância de J. Rey Soul para a formação atual.

Créditos: Márcio / @marcioreflynn para ASetlist

A ausência de Fergie, naturalmente, pairava sobre a apresentação. A cantora deixou oficialmente o grupo em 2017, justamente depois de participar da fase que transformou o Black Eyed Peas em um fenômeno global. Foi durante esse período que vieram álbuns como Elephunk, Monkey Business, The E.N.D. e The Beginning, responsáveis por sucessos que continuam sendo alguns dos momentos mais esperados dos shows atuais. O reencontro dos quatro integrantes da formação mais conhecida no American Music Awards, em maio de 2026, ainda alimentou a expectativa de uma eventual participação no Rock in Rio, mas Fergie não apareceu no festival.

E o show fez uma escolha acertada ao não transformar essa ausência em seu assunto principal. Em vez de tentar reproduzir Fergie, J. Rey Soul ocupou o espaço com personalidade própria. Isso é particularmente importante em músicas como “My Humps”, “Meet Me Halfway” e “I Gotta Feeling”, nas quais a memória do público está inevitavelmente ligada à voz da cantora. A apresentação não apaga essa associação, mas mostra que o Black Eyed Peas atual precisa ser entendido como uma formação diferente daquela que marcou seu auge comercial.

É aí que a presença de J. Rey Soul ganha importância para além da função de substituição. Ela representa uma nova etapa da banda e permite que músicas antigas continuem sendo apresentadas sem que o grupo precise fingir que está em 2009. O resultado é uma espécie de negociação com a própria memória: as canções permanecem familiares, mas quem está no palco agora é uma banda que passou por mudanças e continua tentando construir sua próxima fase.

Will.i.am permanece como o principal condutor dessa transformação. Entre produção, vocais, interação com o público e construção do espetáculo, ele continua ocupando o centro da identidade do Black Eyed Peas. Taboo e apl.de.ap, por sua vez, preservam a dinâmica que ajudou a definir a formação do grupo desde os anos 1990, quando a banda ainda estava mais próxima do hip hop alternativo do que do pop eletrônico que dominaria sua carreira posterior. A própria história do grupo é marcada por essa capacidade de mudar de linguagem sem abandonar completamente sua origem.

Créditos: Márcio / @marcioreflynn para ASetlist

Essa transformação ficou evidente ao longo do repertório. “Let’s Get It Started” recupera uma fase mais diretamente ligada ao hip hop; “Boom Boom Pow” e “Rock That Body” representam a guinada eletrônica; “RITMO (Bad Boys for Life)” e “MAMACITA” mostram a aproximação com ritmos latinos; enquanto “Where Is the Love?” resgata uma dimensão mais reflexiva da banda. O grupo nunca foi de um gênero só, e o show funciona justamente porque essa mistura continua sendo seu principal método de criação.

Mas foi quando o Black Eyed Peas deixou de olhar para seu próprio catálogo e passou a olhar diretamente para o Brasil que a apresentação encontrou seu momento mais interessante. Papatinho subiu ao palco para uma participação que estava sendo construída havia anos. A parceria entre o produtor brasileiro e Will.i.am começou a ganhar forma justamente depois do encontro entre os dois no Rock in Rio de 2019 e evoluiu para novas colaborações. Em 2026, essa relação ganhou uma dimensão maior com o projeto de produzir um trabalho do Black Eyed Peas inspirado no Carnaval do Rio, misturando elementos brasileiros ao pop global do grupo.

No Rock in Rio, a ideia deixou de ser apenas promessa e apareceu concretamente no palco. Papatinho levou o funk para a apresentação e dividiu a cena com Will.i.am, enquanto os artistas apresentaram “WE LIVE UP IN HERE”, colaboração revelada durante o próprio show. O momento também incorporou referências diretas ao funk brasileiro, incluindo “Rap da Felicidade”, de Cidinho & Doca, e “Rap das Armas”, de Junior & Leonardo. A participação funcionou justamente porque não parecia uma tentativa artificial de agradar ao público brasileiro: era a continuação de uma parceria musical que já vinha sendo construída.

No fim, o Black Eyed Peas encontrou no Rock in Rio uma maneira eficiente de lidar com a própria história. Não ignorou a era Fergie, porque seria impossível fazer isso diante de músicas tão associadas à cantora, mas também não tentou reproduzi-la artificialmente. O resultado foi um show que cumpriu aquilo que se esperava dele, mas encontrou seus melhores momentos quando foi além da expectativa.

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