Com três décadas de carreira nas costas, banda transforma sucessos, raridades e memória em um dos shows mais eficientes da primeira noite do festival.
Créditos: MORIVA / @LALI_MOSS
Às 0h05 da madrugada de sábado, depois de uma sexta-feira marcada por diferentes vertentes do rock, Dave Grohl apareceu no Palco Mundo e não perdeu tempo tentando criar uma atmosfera que a própria banda já traz consigo. “All My Life” abriu a apresentação, seguida por “The Pretender”, “Times Like These” e “Rope”. Em quatro músicas, estava estabelecido o princípio que conduziria os quase 115 minutos seguintes: pouca cerimônia, muito volume e uma coleção de canções que o público conhece pelo primeiro acorde.
O Foo Fighters chegou ao Rock in Rio carregando 31 anos de história. E, em vez de transformar essa trajetória em uma retrospectiva, tratou-a como matéria-prima para um show essencialmente ao vivo. A diferença parece pequena, mas é importante. As músicas não foram apresentadas como peças de museu. “My Hero”, “Learn to Fly”, “Walk”, “Monkey Wrench” e “Best of You” continuam funcionando porque a banda ainda encontra energia dentro delas, e porque Grohl sabe exatamente quando deixar que o público assuma a condução.
Foi o que aconteceu repetidamente durante a noite. Em “My Hero”, a voz da plateia tornou-se praticamente um segundo instrumento. Em outros momentos, Grohl incentivou os fãs a cantarem mesmo que não soubessem as letras, numa interação que combina perfeitamente com a personalidade que o vocalista construiu ao longo das décadas: menos a figura intocável de um headliner e mais o músico que parece genuinamente satisfeito em estar diante de uma multidão.
Essa comunicação foi um dos elementos mais fortes da apresentação. Grohl falou, brincou, provocou e, principalmente, deixou que o público participasse. Em um festival da dimensão do Rock in Rio, onde a distância entre palco e plateia pode ser enorme, essa capacidade de criar proximidade é parte fundamental do espetáculo.
Uma banda que ainda toca como banda
Se Dave Grohl é o rosto mais reconhecível do grupo, a apresentação também mostrou que o Foo Fighters continua funcionando como uma unidade.
A presença de Ilan Rubin na bateria naturalmente desperta atenção. O músico assumiu o posto depois da saída de Josh Freese e chega a um grupo cuja história recente é inevitavelmente atravessada pela presença de Taylor Hawkins. No palco, entretanto, Rubin não pareceu interessado em ocupar o lugar de ninguém. Sua bateria acrescentou força e precisão a uma formação que já chega ao palco com enorme experiência coletiva.
Isso fica particularmente evidente nas músicas mais pesadas. “Stacked Actors”, “Monkey Wrench” e “Breakout” deram ao show alguns de seus momentos de maior intensidade, enquanto “The Sky Is a Neighborhood” mostrou que a banda consegue transitar entre diferentes fases sem comprometer a unidade da apresentação. O resultado é menos sobre demonstrar virtuosismo individual e mais sobre a eficiência de uma banda que sabe exatamente como fazer suas músicas crescerem diante de um público desse tamanho.
A banda não precisa provar que consegue tocar alto. Também não precisa transformar cada música em uma demonstração de técnica. O que importa é a sensação de que aquelas canções foram feitas para ser tocadas assim: em volume alto, com guitarras abertas, bateria pesada e uma multidão participando.
O passado como parte do presente
Um dos méritos do repertório foi não se limitar à sequência mais previsível de grandes sucessos.
“Marigold” foi provavelmente a escolha mais simbólica da noite. A música, composta por Grohl e originalmente registrada ainda no período em que ele integrava o Nirvana sob o nome Late!, levou o público de volta ao início dos anos 1990. Antes de tocá-la, o músico lembrou sua primeira passagem pelo Brasil, em 1993, e dedicou a canção aos fãs antigos do Nirvana.
É um momento particularmente interessante porque o Foo Fighters poderia passar duas horas inteiras falando apenas de sua própria história. Em vez disso, Grohl abriu uma pequena janela para aquilo que existia antes da banda que o transformou em um dos principais nomes do rock de sua geração.
Mais tarde, veio “Exhausted”, faixa que encerra o álbum Foo Fighters, de 1995. Segundo o próprio Grohl, era a primeira vez que a música era tocada no Brasil. A escolha funciona quase como um presente para quem acompanha a banda desde o começo, e como um lembrete de que, por trás dos grandes singles, existe uma discografia suficientemente extensa para ainda guardar surpresas depois de três décadas.
Entre as duas, o repertório ainda encontrou espaço para “Window”, do recém-lançado Your Favorite Toy. A música representa a fase mais recente da banda e também o primeiro álbum de estúdio do Foo Fighters com Rubin na bateria. A faixa apareceu sem quebrar o fluxo do espetáculo e mostrou que a nova etapa do grupo pode conviver naturalmente com o material que o trouxe até aqui.
Taylor Hawkins, presente.
“Aurora” teve outro peso. A faixa de There Is Nothing Left to Lose foi dedicada a Taylor Hawkins, mas o momento não transformou a apresentação em um tributo. E talvez justamente por isso tenha sido tão eficiente.
Taylor faz parte da história do Foo Fighters de maneira impossível de separar da banda. Sua ausência está necessariamente presente quando o grupo sobe ao palco. Ainda assim, o show não ficou preso a essa ausência. “Aurora” apareceu como música e como memória, dentro de uma apresentação que estava olhando principalmente para frente.
É uma distinção importante. O Foo Fighters de 2026 não tenta apagar aquilo que aconteceu nos últimos anos, mas também não parece disposto a transformar o passado em seu único assunto. A nova formação existe, toca, se movimenta e produz sua própria energia. O show encontra justamente aí uma de suas maiores forças.
Dave Grohl continua sendo Dave Grohl
Existe uma razão pela qual, depois de três décadas, Dave Grohl continua sendo um dos frontmen mais eficientes do rock. Ele não precisa interpretar o papel de astro.
Durante o show, correu pelo palco, alternou guitarra e microfone, conversou com o público e terminou a apresentação completamente molhado depois da chuva que atingiu a Cidade do Rock. O comportamento é coerente com a imagem que construiu desde os anos 1990: a de alguém que parece ainda enxergar o palco como um lugar onde é preciso tocar até o limite.
Créditos: Rock in Rio / @rockinrio
Aos 57 anos, a disposição física continua impressionante, mas é a espontaneidade que faz diferença. Grohl sabe que está diante de dezenas de milhares de pessoas. Ao mesmo tempo, conduz a apresentação como se estivesse falando diretamente com elas. Essa combinação entre escala monumental e proximidade talvez seja o maior patrimônio do Foo Fighters como banda ao vivo.
Um encerramento à altura
“Best of You” veio com um encerramento estendido e preparou o terreno para “Everlong”. A escolha da última música não surpreende, e nem precisava.
Quando os primeiros acordes apareceram, a resposta da Cidade do Rock foi imediata. O público já havia cantado boa parte da apresentação, mas a faixa de The Colour and the Shape elevou novamente o coro e fechou uma noite construída justamente sobre essa relação entre memória individual e experiência coletiva.
É difícil pensar em uma música mais adequada para concluir aquela apresentação.
Porque o show do Foo Fighters não dependeu de uma grande surpresa final. Seu impacto foi sendo acumulado ao longo das quase duas horas: na abertura explosiva, nos clássicos, nas raridades, na homenagem a Taylor, na estreia de músicas mais recentes, na presença de Rubin e, sobretudo, na maneira como Dave Grohl conduziu uma plateia inteira sem jamais parecer distante dela.


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