Com humor, teatralidade e um repertório que equilibra passado e presente, banda sueca conquista o público e mostra por que sua reputação como atração ao vivo atravessa décadas.
Créditos: MORIVA / @MANGABEIRA
Na primeira noite do Rock in Rio 2026, os suecos chegaram ao Palco Mundo às 19h e encontraram uma Cidade do Rock ainda se organizando para a longa sequência de apresentações que terminaria com o Foo Fighters. Não havia, naquele momento, uma multidão concentrada exclusivamente diante do palco. Havia um público heterogêneo, parte dele familiarizado com a banda, parte apenas esperando pela próxima atração.
O The Hives tratou essa condição não como obstáculo, mas como convite. Em pouco tempo, o espaço diante do palco deixou de ser apenas uma passagem entre um show e outro. Pelle Almqvist e companhia começaram a construir uma apresentação que depende tanto das músicas quanto da capacidade de transformar quem está assistindo em participante. E essa é uma habilidade que a banda domina há muito tempo.
A primeira música é só o começo
“Enough Is Enough” abriu o repertório e já apresentou uma característica fundamental do show: o The Hives não espera a plateia entregar energia para então responder, a banda produz essa energia.
Pelle Almqvist passou boa parte da apresentação em movimento, utilizando cada espaço disponível no palco, enquanto a comunicação com o público acontecia praticamente o tempo todo. Em vez de longos discursos, o vocalista trabalhava com comandos curtos, provocações e brincadeiras, muitas delas em português.
“Palmas”, “muito bom”, “mais barulho” e outras expressões foram aparecendo entre as músicas, demonstrando um esforço evidente para diminuir a distância entre uma banda sueca e um público brasileiro que, para uma parcela significativa, ainda estava conhecendo aquele repertório.
O personagem faz parte da música
O The Hives sempre entendeu que rock também é imagem. Os ternos preto e branco, os movimentos calculados, a postura exageradamente confiante e o humor autocelebratório não são elementos colocados ao redor da música, eles fazem parte da identidade da banda.
No Rock in Rio, isso apareceu nos detalhes. Os figurinos tradicionais ganharam elementos iluminados, enquanto um letreiro com o nome do grupo ajudava a compor o cenário. Não era uma produção gigantesca, e nem precisava ser. A maior parte do espetáculo acontecia no próprio corpo dos músicos.
Pelle joga o microfone para o alto, aponta para a plateia, corre, dança, faz poses e assume deliberadamente o papel de alguém que sabe que está em um palco. Quando o vocalista repete que o Rock in Rio é “ótimo festival, ótimo público e ótima banda”, a frase deixa de ser apenas uma brincadeira depois de algumas repetições. Torna-se uma espécie de lema absurdo e divertido que resume a maneira como o The Hives enxerga a própria existência: se a banda acredita que é a melhor, cabe ao público decidir se concorda.
No Rock in Rio, uma parte significativa da plateia acabou concordando.
Créditos: MORIVA / @VANSBUMBEER
Um repertório que não vive apenas do passado
Outro aspecto interessante da apresentação foi a maneira como o The Hives distribuiu sua carreira pelo set. Seria fácil construir um show baseado exclusivamente em Veni Vidi Vicious, álbum de 2000 que consolidou a banda internacionalmente. “Main Offender” e “Hate to Say I Told You So” apareceram, mas não dominaram a apresentação.
Em vez disso, o repertório deu espaço considerável aos trabalhos mais recentes. “Bogus Operandi”, “Countdown to Shutdown” e “The Hives Forever Forever The Hives” mostram uma banda que não está simplesmente viajando pelo circuito de festivais para reproduzir aquilo que funcionou duas décadas atrás. O The Hives continua interessado em apresentar material novo e, mais importante, suas músicas recentes não parecem intrusas em meio aos clássicos.
“Paint a Picture” e “Hooray Hooray Hooray” ajudaram a reforçar essa impressão. A sonoridade continua reconhecível: guitarras secas, riffs diretos, bateria acelerada e aquela combinação de garage rock e punk que sempre esteve no centro da identidade do grupo.
Quando o hit chega, o público entende
“Hate to Say I Told You So” foi um dos pontos de virada. Pelle apresentou a música de maneira deliberadamente exagerada, tratando-a como um “grande, grande hit” antes de deixar que a própria canção justificasse a afirmação.
E justificou. A parte mais familiarizada com a banda respondeu imediatamente, mas o interessante foi observar o restante do público sendo progressivamente incorporado. A apresentação não dependia de todos conhecerem todas as músicas. Bastava que reconhecessem a energia.
A arte de não se levar tão a sério
Talvez o maior mérito do The Hives seja conseguir sustentar uma imagem extremamente confiante sem transformar essa confiança em arrogância.
A banda brinca com a própria reputação. Pelle brinca com a ideia de que o The Hives é a melhor banda do mundo. Brinca com o Foo Fighters. Brinca com o público. Brinca com os próprios integrantes. E tudo isso acontece enquanto os músicos tocam com absoluta seriedade.
Depois de “Walk Idiot Walk”, a banda deixou “Nobody Does It Better”, de Carly Simon, tocar enquanto os integrantes se despediam. A música, famosa por integrar a trilha de 007 — O Espião Que Me Amava, de 1977, funciona como a última provocação de uma apresentação inteira construída sobre autoconfiança.


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