Com oito músicas, o Alter Bridge fez valer cada minuto no palco antes de uma apresentação grandiosa do Iron Maiden, que celebrou cinco décadas de história diante do público paulistano.
Domingo, 25 de outubro, foi dia de encontro entre gerações, riffs que atravessaram décadas e duas bandas que, cada uma à sua maneira, ajudaram a construir a história do rock e do heavy metal. No Nubank Parque, em São Paulo, o Alter Bridge teve a missão de abrir a noite para o Iron Maiden, que segue celebrando seus 50 anos de trajetória com a turnê Run for Your Lives. Para quem estava ali pela banda, a noite já prometia. Para quem também aguardava pelo retorno do Alter Bridge, havia um motivo a mais para fazer daquele domingo uma data especial.
Alter Bridge: oito músicas e uma vontade enorme de ouvir mais
Existe uma diferença entre assistir a uma banda da qual você gosta e finalmente reencontrar uma banda que faz parte da sua história musical. Para mim, o Alter Bridge está na segunda categoria. Por isso, quando as luzes se apagaram e os primeiros acordes de “Silent Divide” anunciaram a entrada do quarteto norte-americano, a expectativa era grande. E a sensação de ter Myles Kennedy, Mark Tremonti, Brian Marshall e Scott Phillips novamente diante do público brasileiro fez cada minuto valer a pena.
A apresentação começou com o peso da faixa que abre o álbum mais recente, autointitulado, lançado em 2026. “Silent Divide” deu o tom de um show que passeou por diferentes momentos da discografia, com a banda apostando em um repertório enxuto, mas capaz de mostrar diferentes facetas de sua identidade musical.
Na sequência, “Addicted to Pain” trouxe a urgência dos riffs e a combinação entre a guitarra de Tremonti e a voz de Kennedy, antes de “Cry of Achilles” ampliar o espaço para as construções progressivas que também fazem parte da identidade do grupo. É nesse tipo de composição que o Alter Bridge demonstra o quanto seus integrantes conseguem trabalhar com precisão sem abrir mão do peso.
“Fortress” foi outro momento importante. A faixa-título do álbum de 2013 continua sendo um dos exemplos mais interessantes da capacidade do grupo de combinar complexidade instrumental, intensidade e melodias marcantes. Em um repertório de apenas oito músicas, a escolha de três faixas daquele disco também mostrou o espaço que esse trabalho ocupa na trajetória da banda.
Com “Silver Tongue”, o Alter Bridge trouxe o peso de Pawns & Kings, enquanto “Metalingus” colocou em evidência um dos grandes trunfos do grupo: a capacidade de construir músicas que funcionam tão bem pela força dos riffs quanto pela resposta que provocam em quem acompanha sua carreira. A química entre os músicos permanece evidente, com Tremonti alternando passagens de grande peso com solos precisos, enquanto a cozinha formada por Marshall e Phillips sustenta cada mudança de andamento.
E, claro, há Myles Kennedy. Dono de uma das vozes mais reconhecíveis do hard rock contemporâneo, o vocalista mantém a segurança mesmo diante de linhas melódicas exigentes. Sua interpretação de “Blackbird”, uma das composições mais emblemáticas da discografia do Alter Bridge, foi um dos pontos altos da apresentação. É uma música que cresce justamente na combinação entre delicadeza, tensão e explosão instrumental, e que continua carregando um peso especial para quem acompanha a banda há anos.
O encerramento com “Isolation” deixou a sensação de que ainda havia muito a ser ouvido. E havia mesmo.
Foram aproximadamente 50 minutos e oito músicas. Para quem conhece a discografia do Alter Bridge, é inevitável imaginar o que poderia ter entrado nesse repertório. A apresentação argentina realizada dias antes, em formato solo, havia permitido um set consideravelmente maior. Em São Paulo, a condição de banda de abertura naturalmente impôs limites.
Mas há algo que não pode ser medido pela quantidade de músicas: a experiência de reencontrar uma banda que você queria ver de perto novamente. O set curto deixou aquele gosto de quero mais, mas não diminuiu a importância do momento. Pelo contrário. A vontade de continuar ouvindo só reforçou o quanto ainda havia espaço para o Alter Bridge naquele palco.
Talvez nem todo mundo na plateia estivesse ali pelo quarteto, e isso faz parte da realidade de qualquer banda de abertura. Ainda assim, a qualidade dos músicos falou por si. Para os fãs que esperavam por esse reencontro, houve riffs, solos, vocais e canções que justificaram a expectativa. E, para mim, que acompanho a banda com um carinho especial, foi impossível não aproveitar cada segundo.
Se pudesse escolher, teria pedido mais uma hora de show. Ou duas. Mas isso é assunto para outra ocasião. O que fica é a alegria de ter o Alter Bridge de volta, a certeza de que a banda segue em grande forma e a esperança de que esse retorno não demore tanto para se repetir.
Iron Maiden: cinco décadas de história e uma aula de espetáculo
Depois de uma apresentação que deixou os fãs do Alter Bridge querendo mais, era hora de receber uma das instituições mais importantes do heavy metal. O Iron Maiden subiu ao palco com a responsabilidade de celebrar 50 anos de história e mostrar por que continua reunindo multidões ao redor do mundo.
A turnê Run for Your Lives propõe uma viagem por diferentes capítulos da trajetória da banda, com destaque para os primeiros álbuns e para as músicas que ajudaram a estabelecer sua identidade. Em São Paulo, a escolha do repertório reforçou essa proposta desde o início, com “Murders in the Rue Morgue”, “Wrathchild”, “Killers” e “Phantom of the Opera”, resgatando a fase de Paul Di’Anno e a sonoridade mais crua dos primeiros anos.
É interessante observar como essas composições continuam relevantes. Elas carregam a urgência de uma banda que ainda estava construindo sua identidade, mas já apresentava elementos que se tornariam fundamentais para o heavy metal britânico. Ouvi-las em um estádio, décadas depois, é perceber que a história do Maiden não se resume aos grandes sucessos que dominaram as rádios e os palcos ao longo dos anos.
A partir de “The Number of the Beast”, o repertório avançou por diferentes momentos da carreira, alternando clássicos de impacto imediato com composições mais longas e elaboradas. “Powerslave”, “2 Minutes to Midnight”, “Rime of the Ancient Mariner” e “Seventh Son of a Seventh Son” mostraram a dimensão épica que a banda incorporou à sua música, enquanto “Run to the Hills” e “The Trooper” trouxeram aquela energia que parece atravessar gerações sem perder força.
Um dos destaques foi “Infinite Dreams”, escolha especialmente significativa para os fãs que conhecem a história da banda e sabem o quanto a música permaneceu afastada dos repertórios ao vivo por tantos anos. A composição acrescentou uma camada especial à apresentação e mostrou que revisitar o passado também pode significar recuperar momentos que pareciam distantes demais dos palcos.
Bruce Dickinson, por sua vez, continua sendo uma figura central para entender o poder do Iron Maiden ao vivo. Sua presença de palco, a interpretação dramática das canções e a maneira como conduz o espetáculo ajudam a transformar o repertório em uma experiência que vai além da execução musical. O vocalista não está ali apenas para cantar: ele participa da construção de cada cenário, acompanha a narrativa das músicas e mantém a apresentação em movimento.
As mudanças visuais, as aparições de Eddie e a utilização dos telões contribuíram para essa atmosfera. O espetáculo assumiu diferentes formas conforme o repertório avançava, acompanhando as narrativas e a identidade de cada fase da banda. Em “Fear of the Dark”, as luzes dos celulares transformaram o estádio em parte da própria cena, enquanto “Aces High” trouxe a energia necessária para o bis.
A formação também merece atenção. Steve Harris segue como uma das forças fundamentais do grupo, sustentando a identidade rítmica que ajudou a definir o som do Maiden. Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers mantêm a riqueza das harmonias e dos solos que fazem parte da assinatura da banda. Já Simon Dawson, assumindo a bateria após a saída de Nicko McBrain das apresentações ao vivo, enfrenta o desafio de ocupar um posto historicamente associado a uma personalidade musical muito particular.
A execução apresentou diferenças de andamento em alguns momentos, mas o conjunto continuou poderoso. Uma banda com cinco décadas de história não precisa provar sua importância a cada compasso. Ainda assim, o que impressiona é a capacidade de transformar um repertório tão conhecido em um espetáculo que mantém sua força diante de um público de diferentes idades.
“Run to the Hills”, “The Trooper”, “Hallowed Be Thy Name” e “Wasted Years” são músicas que dispensam apresentações, mas que continuam ganhando novas dimensões quando executadas ao vivo. E é justamente aí que o Iron Maiden reafirma seu tamanho: suas composições não dependem apenas da memória afetiva dos fãs. Elas continuam funcionando como grandes peças de heavy metal, sustentadas por melodias, riffs, harmonias e narrativas que resistiram ao tempo.
A apresentação teve seus momentos de maior intensidade e outros em que o andamento pareceu menos acelerado do que em registros de épocas anteriores. Isso faz parte da análise de qualquer show, especialmente quando se trata de uma banda cuja identidade foi construída também sobre a velocidade e a precisão instrumental. Ainda assim, essas observações não diminuem o que foi entregue naquela noite.
O Iron Maiden continua sendo uma banda extraordinária ao vivo. Não só pelo tamanho de sua história, mas pela capacidade de transformar essa história em um espetáculo que faz sentido no presente.

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