Banda transforma penúltima apresentação da turnê “A Última Ponta” em celebração política, histórica e emocional
Fumaça no ar, memória viva e energia coletiva: o Planet Hemp transformou seu show de despedida em São Paulo, no Allianz Parque, em um dos momentos mais marcantes da música brasileira recente.
No sábado, 15 de novembro, o grupo carioca que por três décadas rompeu fronteiras entre rap, rock, hardcore e psicodelia apresentou um espetáculo de 2h30 que reuniu história, discursos políticos, convidados de peso e uma catarse coletiva que começou antes mesmo do primeiro acorde.
Uma despedida carregada de história e propósito
Antes do Planet Hemp pisar no palco, o público assistiu a um vídeo de mais de 20 minutos relembrando a trajetória da cannabis no Brasil e o papel central da banda nesse debate desde 1993. Trechos de reportagens, prisões, marchas, movimentos sociais e aparições clássicas na mídia moldaram o tom da noite: a despedida seria também um manifesto.
Com “Dig Dig Dig (Hempa)” abrindo o set, a banda deu início a uma sequência explosiva que incluiu “Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga”, “Legalize Já”, “Não Compre, Plante!” e “Queimando Tudo”. Os telões gigantes ajudavam a narrar episódios marcantes, enquanto a plateia respondia com emoção.
Marcelo D2 distribuiu “obrigados” — aos fãs, aos ex-integrantes, aos parceiros de caminhada — e aproveitou para reforçar pautas como descriminalização, encarceramento e liberdade individual. “Nunca tenham medo”, discursou BNegão antes de iniciar a faixa, ecoando a força política que sempre sustentou o Planet.
Convidados, surpresas e um palco carregado de memória
A noite ganhou momentos ainda mais memoráveis com as participações especiais. Emicida e Seu Jorge surgiram primeiro, em “Nunca Tenha Medo” e “AmarElo”. O artista ainda retornaria com flauta em “Biruta” e na dobradinha “Cadê o Isqueiro?” / “Quem Tem Seda?” / “Pilotando o Bonde da Excursão”.
Pitty trouxe peso e nostalgia com “Admirável Chip Novo” e “Teto de Vidro”, fazendo o estádio pulsar.
Depois, o repertório virou homenagem ao underground, com referências ao skate, ao punk e ao hardcore — incluindo trechos jornalísticos que relembraram a icônica prisão da banda em 1997, antes de “O Bicho Tá Pegando”.
O público explodiu quando Black Alien, figura fundamental da formação original, surgiu de surpresa no palco para “Contexto” e “Queimando Tudo”. Foi o momento mais emocional da noite. D2 revelou que o rapper avisou sua presença apenas algumas horas antes.
O bis manteve esse clima: “Deisdazseis”, “Crise Geral” com João Gordo — uma homenagem direta às raízes punk — e o fechamento com “Mantenha o Respeito”, com a presença de Black Alien e Gordo
Um legado que vai muito além da despedida
O Planet Hemp encerra seu ciclo como uma das bandas mais influentes da música brasileira contemporânea. Musicalmente, atravessaram gêneros com maestria rara. Politicamente, abriram portas, desafiaram o Estado e transformaram a pauta da legalização em debate nacional. Culturalmente, formaram gerações, da velha guarda do hip-hop aos novos nomes do rock, do punk e do rap.
No Allianz Parque, não foi apenas um show. Foi a celebração de 32 anos de resistência, arte e impacto social.
Uma despedida à altura de um grupo que, mesmo saindo de cena, deixa marcas definitivas na música e na história do país.
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