O músico, compositor e produtor Miguel Góes quebra o silêncio e a melancolia da memória com seu primeiro disco solo, "Pequenas Lembranças". É um mergulho instrumental no universo da sétima arte, concebido e gravado como se cada faixa fosse uma trilha sonora original para filmes que só existem na sua cabeça. O resultado é um trabalho colaborativo, que costura a sofisticação harmônica do jazz e da MPB com a estética de Hollywood.
Miguel Góes nasceu com a câmera na mão, a batuta no ouvido e cresceu respirando o backstage da cultura. Essa influência é a espinha dorsal do álbum. Suas composições instrumentais, que nascem simples no violão, ganham corpo com arranjos jazzísticos e orquestrais, soando como peças desenhadas para as tais trilhas, conceito que o próprio artista elege como o grande fio condutor do trabalho.
Essa visão de cinema foi levada ao limite no estúdio. Em um movimento incomum, Góes vestiu o chapéu de diretor: ele abriu mão de tocar em três faixas para ficar na direção de som. “Na gravação muitas vezes fiquei como diretor em set de filmagem”, explica. “Se eu achasse que precisava de tal ‘luz’, chamava o ‘fotógrafo’ que sabia que me entregaria. Brian Wilson (Beach Boys) foi uma referência nesse sentido.” Essa postura garantiu que o registro por outras mãos alcançasse a sonoridade exata que ele tinha em mente, como se ele estivesse regendo não a orquestra, mas a cena.
Apesar de a primeira canção do álbum datar de 2015, o disco, gravado a partir de 2021, é um esforço coletivo que reuniu quase 20 músicos, transformando o estúdio em um set de filmagem com elenco de peso.
Miguel já tem um currículo expressivo no backstage da música brasileira, tendo tocado baixo na banda de rock progressivo Dônica (com Tom Veloso, Zé Ibarra e Lucas Nunes) e gravado o instrumento no disco mais recente do ícone da MPB.
Essa linhagem musical se faz presente na faixa-foco "Venham todos vocês sonhadores!", um momento de puro jazz com arranjos vocais que trazem os ex-parceiros de Dônica: Tom Veloso, Lucas Nunes, Zé Ibarra e André Almeida. O título nasceu de uma brincadeira de turnê: após apoiarem Caetano e Gil na Europa, a noite terminou em um bar onde um estranho cantou a frase que ficaria para a história: “Come all you dreamers!”.
A base do disco é profundamente brasileira. "As composições são mais para o lado MPB, pois é minha referência musical", afirma Góes. Não à toa, a faixa "Último entardecer" evoca o clima suave e a batida minimalista da Bossa Nova, com um forte acento de João Gilberto.
Oito faixas compõem a tracklist, cada uma com sua própria referência cultural:
“Pêssegos e penumbras”: O primeiro single lançado, uma balada roqueira melancólica. A guitarra slide dita o ritmo blues, enquanto o título faz referência ao poema "A Supermarket in California", do poeta beat Allen Ginsberg.
“Pequenas lembranças”: A faixa-título é toda imagética, como toda trilha-sonora que se preze, com piano e citações quase de réquiem.
“Pastoral e Pastoral II”: Evocam a sonoridade rica e clássica das trilhas cinematográficas dos anos 1950.
“Fiquei imenso tempo à tua espera”: Um jazz clássico anos 1950 com belo naipe de sopros, cujo nome foi tirado de frase que o músico capturou em uma legenda de filme no português original europeu.
“Espectros”: O último jazz composto para o disco, um tema com forte toque de trilha, amarrando a narrativa do álbum.
“É um disco de música brasileira, apesar de não ser focado em gênero tipicamente brasileiro. Não é samba, não é bossa nova, mas ainda assim é Brasil”, resume Miguel sobre a identidade sonora de "Pequenas Lembranças".
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