Papangu. Para muitos, parece uma palavra estranha mas na verdade carrega em sua origem uma herança cultural que transpira brasilidade. O nome vem de uma tradição centenária que surgiu no carnaval de Bezerros, interior pernambucano, onde “mascarados” conquistam as ruas com suas roupas coloridas.
Algumas décadas depois, influenciados por esse espírito de misturas culturais, o grupo formado inicialmente por Marco Mayer, Hector Ruslan e Raí Accioly, depois acompanhados de Pedro Francisco, Rodolfo Salgueiro e Vitor Alves, dá seus primeiros suspiros com a banda Papangu. Com boa parte dos seus integrantes da Paraíba, em um frenesi de referências sonoras, a banda Papangu tem recebido críticas positivas com a sua forma única de fazer música, sendo classificada como uma representação do “rock troncho”.
Seu último trabalho de estúdio, Lampião Rei (2024), evoca um realismo mágico para abordar temas que, por vezes, são apagados do nosso contexto cultural. Gravado pelo vencedor do Grammy Latino, Fernando Sanches e mixado por Richard Behrens, o segundo álbum da banda é mais maduro em suas referências, trazendo elementos do rock progressivo, jazz e heavy metal.
Em conversa com a Setlist, Rodolfo comentou sobre a origem da banda, artistas que influenciam o processo criativo da banda, como foi a experiência no exterior e como foi receber o convite para participar do Lollapalooza em 2026. A banda celebra cada vez mais suas raízes, pronta para realizar uma série de shows no Brasil e para finalizar seu terceiro álbum!
Abaixo você pode conferir uma prévia da transcrição do áudio de algumas das perguntas e para saber tudo o que rolou nesse bate-papo, confira na íntegra o vídeo da entrevista!
Mayara: A primeira pergunta será falando um pouquinho sobre o nome da banda que é um nome bem específico, principalmente quem tá conhecendo agora às vezes as pessoas se questionam porque a Papangu?
Rodolfo: A Papangu [...] é uma banda paraibana [...] nós somos quase todos paraibanos e temos um membro que é de Pernambuco. Mas a tradição do Papangu, da figura do Papangu no Nordeste, embora ela seja muito forte em Bezerros no interior de Pernambuco, ela tem seus espelhos noutros estados. Por exemplo, tem a La Ursa, que é uma outra figura assustadora do carnaval que se veste com essa forma com máscaras grandes, adereços, penduricalhos pelo corpo para assustar as crianças ou os adultos e conseguir, pedir e conseguir favores. E a mesma figura também do Papangu. Ela vai aparecendo assim em outros estados do Nordeste, carregando outros nomes. Para nós, aqui da Paraíba, estamos muito perto de Pernambuco também. Existe uma troca de influências, assim, culturais muito forte. E a gente adotou esse nome porque ele transmite não só a força de uma tradição centenária, mas também o mistério. O nordeste misterioso, o nordeste místico e que tem não só a sua superstição, mas tem as suas figuras míticas que até hoje se preservam e carregam essa estranheza que faz parte do dia a dia do carnaval. Muitas vezes as pessoas não se tocam do quão bizarro do quão esquisito isso aí é, elas estão pulando o carnaval e tem um papangu ali. Isso é uma coisa tão, tão, tão forte. E a gente toma isso como algo natural. Mas para quem vê de fora é algo incrível. Então a gente quer ressaltar um pouco dessa magia, desse misticismo que para as bandas que estão fora do Brasil, por exemplo, muitas vezes o público do metal e do rock, em especial muitas bandas, elas se encantam pelo misterioso de fora.
Julie: Agora eu vou prosseguir com uma pergunta que é justamente sobre o Lampião Rei. Esse último álbum que vocês lançaram e ele traz essa série de elementos de criaturas místicas muito presentes na nossa cultura e eu queria entender um pouco como que a influência dessas criaturas ajudou na produção do disco mesmo do Lampião Rei?
Rodolfo: O Lampião Rei é um disco conceitual que trata [...] dentro de um realismo mágico a história de Lampião. Como ela é contada, mas exacerbada para para essas analogias e metáforas do misticismo nordestino, da mágica nordestina, mas calcada em realidade. Então eu diria que tem elementos do Lampião Rei que eu acho que são legais ser descobertos, enquanto você escuta e descobre a história de Lampião. Mas pisando um pouquinho nisso, esse empréstimo da superstição e do mágico nordestino, ele está muito mais sendo utilizado para apoiar essa história do que para roubar o protagonismo dela. Então, se a gente traz o Boitatá ou se a gente traz uma outra figura de um santo, uma santa, que tem uma história em paralelo, aquilo ali está sendo contado para fazer uma analogia com um problema real da história de Lampião, que contrasta com os problemas de hoje, sejam eles as injustiças sociais, as disparidades e desigualdades e as relações de poder das classes que existiam tanto na época de Lampião quanto hoje, que vêm desde lá até aqui, que geram essas distorções do bandido herói, da antítese, do anti-herói…

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