Entre o deathcore de “Pray for Plagues”, a eletrônica de “Kool-Aid” e os grandes refrões de “Can You Feel My Heart” e “Throne”, banda mostrou por que conseguiu crescer sem abandonar completamente as próprias raízes
Se existe uma banda capaz de transformar duas décadas de mudanças em um único espetáculo, é o Bring Me The Horizon. No Rock in Rio, a trajetória do grupo britânico apareceu menos como uma retrospectiva e mais como uma demonstração prática de que todas as suas diferentes fases podem coexistir no mesmo palco. Em 1h20 de apresentação, a banda atravessou o deathcore de Count Your Blessings, o metalcore de Sempiternal, a dimensão radiofônica de That's the Spirit e a eletrônica da série Post Human sem que o repertório parecesse dividido em capítulos incompatíveis.
A escolha de “DArkSide” para abrir a apresentação já apontava para essa lógica. Em vez de começar pela faixa mais antiga ou por um clássico imediatamente reconhecível, o Bring Me The Horizon colocou no centro a versão atual da banda e, logo depois, recuou para “The House of Wolves”. A combinação funcionou como uma espécie de declaração de princípios: o passado está presente, mas não determina mais sozinho o que o grupo é. Quando “Happy Song” e “Teardrops” entraram na sequência, a resposta do público mostrou que essa mistura não precisava ser explicada, bastava ser tocada.
A apresentação também se beneficiou de uma produção visual que acompanha a transformação musical do grupo. Os interlúdios e elementos gráficos inspirados na estética de videogames e ficção científica de Post Human: NeX GEn funcionaram como pontes entre músicas de períodos muito diferentes, evitando que o show se tornasse uma simples sequência de sucessos. A tecnologia, nesse caso, não ocupou o lugar das canções; ajudou a criar uma linguagem única para uma banda que passou boa parte da carreira justamente desmontando e reconstruindo a própria identidade.
Essa capacidade de costurar diferentes versões do Bring Me The Horizon ficou ainda mais evidente quando “Dehumanized” apareceu no repertório. A faixa faz parte do projeto que revisita Count Your Blessings duas décadas depois e representa uma espécie de retorno às origens, só que filtrado pela sonoridade que a banda desenvolveu desde então. O contraste é significativo porque o grupo não precisou simplesmente reproduzir o passado para celebrar seus 20 anos: pôde olhar para aquela primeira fase a partir do artista que se tornou.
O momento mais simbólico dessa ponte aconteceu em “Pray for Plagues”. Oliver Sykes chamou um fã brasileiro ao palco para dividir os vocais da música de 2006, justamente uma das faixas que representam o período mais extremo do início da carreira. A participação poderia facilmente ter funcionado apenas como uma surpresa para os fãs antigos, mas ganhou outro peso dentro do espetáculo: depois de passar por diferentes encarnações sonoras da banda, o Bring Me The Horizon colocou seu passado mais pesado novamente no centro do Palco Mundo.
A escolha do fã também reforçou uma relação particularmente próxima entre o Bring Me The Horizon e o público brasileiro. Sykes falou em português, brincou com a própria relação com o país ao mencionar CPF e Pix e levantou uma bandeira brasileira durante a apresentação. A conexão não surgiu do nada, a banda já havia protagonizado uma passagem de grande repercussão pelo Brasil em 2024, no Allianz Parque, experiência que posteriormente ganhou registro audiovisual. No Rock in Rio, essa proximidade apareceu de maneira mais espontânea, integrada ao espetáculo em vez de funcionar apenas como discurso de ocasião.
ESSE É O MEU PAÍS AGORAAAA 😭 Oliver Sykes, TU É BRASILEIRO!!!! #BMTHNoGloboplay #RockInRioNoGloboplay pic.twitter.com/BEYbtX3jGS
— globoplay (@globoplay) September 6, 2026
Mas o grande trunfo do show foi Oliver Sykes. O vocalista entende que, em um festival desse tamanho, frontman é quem organiza fisicamente a multidão. Entre pedidos para abrir rodas, comandos para os fãs e deslocamentos constantes pelo palco, Sykes transformou o público em parte da apresentação. O resultado foi um Palco Mundo tomado por gritos, saltos e mosh pits.
Essa capacidade de conduzir uma plateia enorme é especialmente importante para entender o tamanho que o Bring Me The Horizon alcançou. “Shadow Moses” e “Kingslayer” mantiveram a agressividade necessária para um sábado de Rock in Rio dedicado ao metal, enquanto “Doomed” trouxe uma dimensão mais atmosférica. Já “Drown” e “Throne” mostraram o quanto a banda aprendeu a transformar estruturas pesadas em músicas capazes de funcionar em escala de arena. O repertório não precisou escolher entre o público que cresceu com Sempiternal e aquele que chegou depois: encontrou espaço para ambos.
ninguém me preparou pra ver o público cantando 'Doomed' com bring me the horizon assim 😭 #BMTHNoGloboplay #RockInRioNoGloboplay pic.twitter.com/q80U812XGN
— globoplay (@globoplay) September 6, 2026
E então veio “Can You Feel My Heart”. Encerrar o show com uma música de Sempiternal que se tornou uma das maiores portas de entrada para uma nova geração de fãs foi uma escolha particularmente eficiente. A faixa representa um ponto de encontro entre aquilo que o Bring Me The Horizon era e aquilo em que se transformou. Ainda existe peso, mas ele convive com sintetizadores, melodias expansivas e uma construção pensada para grandes públicos. Foi também a primeira vez desde 2021 que a música apareceu como encerramento de um show da banda, tornando a escolha ainda mais significativa.
eu quero morar no show do bring me the horizon pra sempre 🥹🫶 #BMTHNoGloboplay #RockInRioNoGloboplay pic.twitter.com/EqZiF2iIMF
— globoplay (@globoplay) September 6, 2026
O curioso é que, apesar de toda essa diversidade, a apresentação nunca pareceu uma aula sobre a carreira do Bring Me The Horizon. Não houve necessidade de explicar ao público que “Pray for Plagues” representa uma fase, que “Shadow Moses” representa outra ou que “Kool-Aid” pertence a um momento diferente. As músicas simplesmente funcionaram em sequência porque a banda construiu, ao longo dos anos, uma identidade suficientemente forte para sobreviver às próprias mudanças.
É aí que o show do Rock in Rio se torna maior do que uma apresentação eficiente de festival. O Bring Me The Horizon conseguiu fazer algo que poucas bandas de sua geração alcançam: transformar uma trajetória marcada por rupturas em uma narrativa coerente. O grupo não precisou escolher entre honrar o passado e apresentar o futuro, colocou os dois frente a frente e deixou que o público reconhecesse a conexão.

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