Em espetáculo concebido especialmente para o Rock in Rio, banda revisitou suas matrizes musicais a partir de “O Mundo Dá Voltas” e reuniu convidados de diferentes gerações e linguagens
O BaianaSystem não chegou ao Rock in Rio para simplesmente transportar para a Cidade do Rock o formato de um show que já percorreu outros palcos. A apresentação deste domingo (6), no Palco Sunset, foi construída especialmente para o festival e partiu de uma pergunta mais interessante: o que existe por trás da música que a banda faz? A resposta apareceu em camadas, misturando afrorock, ijexá, sound system, guitarra baiana, música popular brasileira e referências latino-americanas. O resultado foi menos uma sequência de músicas e mais uma apresentação sobre identidade, memória e transformação.
O ponto de partida foi O Mundo Dá Voltas, álbum vencedor do Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa. O disco olha para um presente atravessado por questões como mudanças climáticas e tensões geopolíticas, mas, para o espetáculo do Rock in Rio, essa perspectiva ganhou outro movimento: olhar para fora levou o BaianaSystem a olhar para dentro. Em vez de abandonar as referências que sustentam sua música, a banda as colocou no centro do palco e mostrou como elas continuam se transformando.
Baiana System abrindo o show no Palco Sunset com 'Água' num dia de chuva = isso é música brasileira!!! 🥹 #BaianaSystemNoGloboplay #RockInRioNoGloboplay pic.twitter.com/jMm6ctrwe8
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Essa escolha foi particularmente adequada ao Sunset, palco que historicamente funciona como espaço para encontros e cruzamentos de linguagens dentro do festival. Às 17h50, depois de Calema e antes do projeto do Jota Quest dedicado a Tim Maia, o BaianaSystem apresentou uma das performances mais conceituais do domingo sem transformar a experiência em algo distante do público.
Um espetáculo construído sobre encontros
A palavra “encontro” talvez seja a que melhor define a apresentação. Alice Carvalho, parceira do BaianaSystem desde 2018, participou do espetáculo como cantora, declamadora e também na direção artística, ao lado de Russo Passapusso e Filipe Cartaxo. A presença da atriz, que vem de trabalhos como O Agente Secreto e Cangaço Novo, amplia uma característica importante da banda: a música não aparece isolada de outras formas de expressão. Corpo, palavra, imagem e performance fazem parte da mesma construção.
a energia do show do baianasystem é sem igual, né?#BaianaSystemNoMultishow #RockinRioNoMultishow pic.twitter.com/FjC5LQo6Qz
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A participação de Antônio Carlos & Jocafi levou ao palco duas figuras fundamentais da música brasileira, enquanto o jamaicano Ranking Joe acrescentou outra camada à conexão com a cultura sound system. Em vez de convidados escolhidos apenas pelo peso de seus nomes, os artistas fizeram sentido dentro da proposta musical apresentada pelo BaianaSystem.
A Bahia como ponto de partida, não como limite
Existe um risco recorrente quando uma banda como o BaianaSystem se apresenta em um festival de grande porte: transformar sua identidade em uma caricatura musical feita para consumo rápido. O grupo fez exatamente o contrário.
A Bahia apareceu como origem, mas não como fronteira. A guitarra baiana, o ijexá e os elementos afro-brasileiros encontraram o sound system jamaicano e referências latino-americanas como cumbia e salsa. As diferentes matrizes não foram apresentadas como peças separadas de um quebra-cabeça, mas como elementos que naturalmente convivem dentro da linguagem construída pela banda.
Essa mistura ajuda a entender por que o BaianaSystem ocupa um lugar particular na música brasileira contemporânea.
O sound system encontra a música brasileira
A participação de Ranking Joe reforçou um dos pilares mais importantes da identidade do grupo. O sound system é parte fundamental da história do BaianaSystem e aparece como referência estética, e como uma forma de pensar a relação entre música, espaço e público. A presença de um artista jamaicano ligado a essa tradição ampliou a dimensão internacional do espetáculo sem deslocá-lo de suas raízes brasileiras.
Essa conexão também ajuda a explicar o próprio nome da banda. O BaianaSystem nasceu do encontro entre a cultura musical da Bahia e a linguagem dos sistemas de som jamaicanos, e essa combinação continua sendo uma das bases de sua produção. No Rock in Rio, ela ganhou uma escala naturalmente maior, mas não perdeu sua característica principal: a música funciona tanto como escuta quanto como experiência física.
O peso das Afrossinfônicas
Outro elemento importante foi a participação de As Afrossinfônicas, acompanhadas por sopros femininos. A presença dessas vozes e instrumentos adicionou dimensão ao espetáculo sem tirar o protagonismo da formação principal. Ao contrário, ajudou a ampliar a ideia de que a sonoridade do BaianaSystem não depende de uma única formação instrumental.
Essa capacidade de expansão é particularmente importante em um festival como o Rock in Rio, cuja estrutura exige que artistas apresentem sua identidade diante de públicos que nem sempre conhecem profundamente seu trabalho.
Juão Nyn e a presença de outras narrativas
A participação do artista potiguara Juão Nyn acrescentou ainda outra camada ao espetáculo. Sua presença reforçou a preocupação do BaianaSystem em construir uma apresentação que não olhasse para a cultura brasileira como uma identidade única e homogênea. A banda parte da Bahia, mas encontra diferentes histórias e manifestações culturais ao longo do caminho.
Isso é particularmente coerente com O Mundo Dá Voltas. O álbum olha para um mundo atravessado por crises que não respeitam fronteiras. O espetáculo responde a esse cenário fazendo justamente o movimento contrário ao isolamento: aproxima culturas, gerações e linguagens.
O triolim recupera uma invenção baiana
Entre os elementos mais curiosos da apresentação esteve o triolim, instrumento criado por Dodô, um dos inventores do trio elétrico. A inclusão do instrumento reforça uma característica recorrente no trabalho do BaianaSystem: recuperar invenções e tradições da música baiana para colocá-las em novos contextos.
O trio elétrico, afinal, também nasceu de uma transformação tecnológica e musical que alterou para sempre a relação entre artista e público no Carnaval da Bahia. Décadas depois, o BaianaSystem trabalha com uma lógica semelhante ao utilizar tecnologias, sistemas de som e diferentes instrumentos para criar experiências coletivas.
Uma apresentação pensada para o festival
O fato de o espetáculo ter sido concebido especialmente para o Rock in Rio também faz diferença. Em vez de reproduzir um show de turnê, o BaianaSystem utilizou a escala do festival para reunir diferentes elementos de sua trajetória em uma única apresentação. A direção artística de Alice Carvalho, Russo Passapusso e Filipe Cartaxo organizou essas referências para que música, performance e convidados funcionassem dentro de uma narrativa única.
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Isso ajuda a explicar por que a apresentação teve tantos elementos diferentes sem parecer simplesmente carregada de informações. Havia um conceito, e ele era suficientemente amplo para comportar todos aqueles encontros.

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