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Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago desenham um Atlântico negro no Rock in Rio

Encontro inédito no festival reuniu rap brasileiro, jazz pernambucano e sonoridades cabo-verdianas em um espetáculo construído sobre memória, identidade e circulação cultural

Créditos: MORIVA / @VICTORCARVALHO

O Rock in Rio começou o sábado (12) no Palco Sunset olhando para além das fronteiras brasileiras. Às 15h30, Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago se encontraram para apresentar um projeto que nasceu justamente do trânsito entre territórios, idiomas e tradições musicais. O espetáculo, criado especialmente para o festival, reuniu três artistas de trajetórias distintas em torno de uma obra que atravessa rap, jazz, MPB, morna e funaná, abrindo o penúltimo dia do Rock in Rio com uma proposta muito diferente daquela que dominaria o Palco Mundo horas depois.

Não se trata, porém, de uma reunião ocasional entre três nomes conhecidos. Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago já haviam transformado seus encontros em um projeto fonográfico, lançado em 2026. O álbum nasceu de sessões em estúdio em Lisboa e foi construído entre cidades como Rio de Janeiro, Recife, São Paulo e a capital portuguesa, carregando na própria produção a ideia de deslocamento que sustenta a obra. Em vez de simplesmente colocar três estilos lado a lado, o trabalho procura encontrar o que existe entre eles.

Criolo chega a esse encontro depois de mais de duas décadas de carreira e de ter se tornado uma das vozes mais importantes do rap brasileiro. Sua trajetória, no entanto, nunca ficou restrita ao hip-hop. Desde Nó na Orelha, lançado em 2011, o artista vem aproximando rap, samba, reggae, soul e outras referências da música brasileira, enquanto seu trabalho também passou a dialogar com artistas de diferentes países e tradições. Aos 50 anos, completados em 2025, o músico entrou em uma fase de carreira particularmente interessada em novas possibilidades de criação.

Ao lado dele, Amaro Freitas representa uma das vertentes mais inventivas do jazz brasileiro contemporâneo. O pianista pernambucano construiu uma linguagem própria a partir do jazz, mas incorporando frevo, maracatu e outras tradições afro-brasileiras ao instrumento. Seu piano funciona menos como acompanhamento e mais como elemento de construção rítmica, fazendo com que a música carregue uma pulsação que aproxima improvisação e ancestralidade.

Dino D’Santiago completa o triângulo a partir de outra margem do Atlântico. Nascido em Portugal e filho de cabo-verdianos, o artista construiu uma obra que aproxima soul, R&B e música eletrônica de ritmos de Cabo Verde, como o funaná e a morna. Sua presença no projeto amplia a conversa iniciada por Criolo e Amaro e coloca a experiência da diáspora africana no centro da criação, não como referência distante, mas como matéria-prima musical.

O álbum conjunto deixa essa proposta evidente. Entre suas faixas estão “Você Não Me Quis”, “Menina do Coco de Carité”, “Seka”, “E Se os Livros Fossem Líquidos? (Poeta Fora da Lei Pt. II)”, “Mama AFRIKA”, “Ela É Foda”, “Anoitecer”, “Fogo Lento”, “No Vento de Nós” e “Amazônia (A-i’ahu)”. O repertório também conta com participações de As Clarianas e Dora Sanches, reforçando a dimensão coletiva de uma obra que se recusa a ficar presa a uma única tradição.

“Esperança” foi uma das peças que ajudaram a aproximar os três artistas antes que o projeto se transformasse em álbum. A música chegou a ser indicada ao Grammy Latino na categoria de Melhor Canção em Língua Portuguesa e funcionou como ponto de partida para uma colaboração que cresceu até assumir a forma de um disco completo. É significativo que o encontro tenha começado por uma canção e chegado ao palco de um dos maiores festivais do mundo sem perder sua dimensão de pesquisa e experimentação.

Créditos: MORIVA / @VICTORCARVALHO

No Rock in Rio, essa pesquisa ganhou outra escala. O Sunset recebeu um encontro anunciado pelo próprio festival como uma celebração de ancestralidade e de fronteiras musicais atravessadas. A proposta não era apresentar três shows individuais em sequência, mas construir um repertório comum, fazendo com que as identidades dos três artistas se encontrassem dentro de uma mesma apresentação.

A escolha de abrir justamente o sábado também diz bastante sobre a curadoria desta edição. Algumas horas depois, o Palco Mundo receberá Pedro Sampaio, J Balvin, Demi Lovato e Maroon 5, em uma programação claramente orientada ao pop de grande alcance. Antes disso, o Sunset estabeleceu outra espécie de escala internacional: uma música brasileira conectada a Pernambuco, São Paulo e à experiência cabo-verdiana, sem precisar recorrer ao idioma inglês para se colocar em diálogo com o mundo.

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