Em retorno especial ao Brasil, britânico revisitou clássicos, cantou diante de mais de 100 mil pessoas e mostrou que sua maior força continua sendo a capacidade de transformar canções conhecidas em momentos coletivos
Há artistas cuja presença em um festival precisa ser contextualizada. Elton John não é um deles. Quando as primeiras notas de “Funeral for a Friend” começaram a preencher o Palco Mundo na noite de 7 de setembro, a sensação era menos de estar diante de mais um headliner do Rock in Rio e mais de assistir a um capítulo particularmente importante da história da música popular. Aos 79 anos, o britânico voltou ao Brasil para uma apresentação única, quase uma década depois de sua última passagem pelo país, e encontrou uma Cidade do Rock lotada para ouvi-lo revisitar uma carreira que atravessa o rock, o pop e algumas das melodias mais reconhecíveis dos últimos 50 anos.
O contexto tornava aquela noite ainda mais significativa. Elton havia encerrado a gigantesca “Farewell Yellow Brick Road” em 2023, depois de 330 apresentações, mas a turnê não passou pela América Latina. O retorno ao Brasil, portanto, nasceu de uma espécie de dívida afetiva com o público brasileiro. O próprio cantor explicou no palco que ficou triste por não ter conseguido incluir o país na última turnê e que, quando recebeu o convite do Rock in Rio, aceitou imediatamente. A apresentação foi, assim, uma exceção dentro de uma carreira que havia reduzido drasticamente o ritmo de grandes shows.
E Elton pareceu entender exatamente o tamanho dessa oportunidade. Não havia necessidade de reinventar o repertório. O setlist foi construído praticamente como uma linha do tempo de sua carreira, começando com a dramaticidade de “Funeral for a Friend/Love Lies Bleeding” e passando por “Bennie and the Jets”, “I Guess That's Why They Call It the Blues”, “Philadelphia Freedom” e “The One”.
A abertura é importante porque estabelece desde os primeiros minutos o que Elton John ainda consegue fazer melhor: transformar o próprio repertório em narrativa. O piano passa a ocupar o centro da experiência, e o público imediatamente reconhece a assinatura de um artista cuja identidade nunca dependeu apenas da voz, mas da combinação entre composição, arranjo, performance e presença cênica.
“Tiny Dancer” é um dos primeiros momentos em que essa capacidade de criar memória coletiva fica especialmente evidente. A música, que poderia facilmente se perder entre tantos clássicos do repertório, ganha força justamente pela intimidade. Em um festival com dezenas de milhares de pessoas, Elton consegue reduzir a escala do espetáculo durante alguns minutos e fazer com que uma canção essencialmente melódica pareça ter sido escrita para aquele encontro específico.
É uma característica que se repete ao longo da noite. “Rocket Man” chega cercada por uma expectativa previsível, afinal, é uma das músicas mais reconhecidas de sua carreira. A canção é uma demonstração de como Elton e Bernie Taupin conseguiram transformar uma narrativa sobre isolamento e deslocamento em uma composição pop de alcance universal. Quando o refrão é devolvido pela plateia, a música ganha uma dimensão que nenhuma gravação de estúdio poderia reproduzir.
muito difícil segurar as lágrimas com elton john cantando rocket man, galera...#EltonJohnNoMultishow #RockinRioNoMultishow pic.twitter.com/QEvEC9HlXh
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O mesmo acontece com “Levon” e “Sorry Seems to Be the Hardest Word”. São escolhas que impedem o repertório de se transformar em uma sequência automática de hits. Elton não construiu o show apenas com aquilo que o público reconheceria nos primeiros segundos; também abriu espaço para músicas que ajudam a contar a história de sua obra e a demonstrar a amplitude de sua parceria com Bernie Taupin. Essa alternância entre grandes sucessos e canções menos óbvias dá ao espetáculo uma dinâmica mais interessante do que simplesmente empilhar refrões.
Um dos momentos mais marcantes veio com “Have Mercy on the Criminal”, seguida por uma interpretação de “Candle in the Wind” executada por Elton sozinho ao piano. Depois de uma apresentação construída com banda, iluminação e grandes imagens no telão, reduzir a estrutura ao instrumento que sempre esteve no centro de sua identidade foi uma escolha especialmente eficiente. A música passou a depender apenas de voz, piano e silêncio, e justamente por isso ganhou uma intensidade diferente.
“Candle in the Wind” também carrega uma história própria com o público brasileiro, que acompanhou diferentes versões e momentos da carreira de Elton. No Rock in Rio, porém, a música não precisou ser tratada como peça de museu. A interpretação encontrou força na simplicidade e mostrou que, mesmo em um palco pensado para multidões, ainda existe espaço para o artista se colocar diante do público sem grandes intermediários.
Depois de “Candle in the Wind”, “Goodbye Yellow Brick Road” devolveu a grandiosidade ao espetáculo. “Sad Songs (Say So Much)” e “Don't Let the Sun Go Down on Me” mantiveram a sequência de clássicos, até que “Crocodile Rock” transformou o Palco Mundo em uma celebração aberta. O telão passou a exibir imagens de fãs brasileiros de diferentes idades, incluindo pessoas usando a camisa da Seleção, bandeiras do país e fantasias de Carnaval. A escolha ampliou a sensação de que aquela apresentação não era apenas a passagem de um astro internacional pelo Brasil, mas uma resposta direta à relação que o público brasileiro construiu com sua música ao longo de décadas.
“Saturday Night's Alright for Fighting” mantém essa energia e prepara o terreno para “I'm Still Standing”. A música ganha um significado adicional quando interpretada por um artista que passou por tantas transformações pessoais e profissionais. O bis começou novamente com Elton ao piano, desta vez para “Cold Heart”, sua colaboração com Dua Lipa que apresentou sua obra a uma geração mais jovem através da produção do PNAU. A presença da faixa no repertório é significativa porque impede que o show fique inteiramente preso ao passado. “Cold Heart” conecta Elton à cultura pop contemporânea e mostra como composições originalmente lançadas décadas atrás podem ganhar nova vida quando recontextualizadas.
omg hi dua lipa no telão do palco mundo em cold heart#EltonJohnNoMultishow #RockinNoMultishow pic.twitter.com/SZnFBTPipn
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Mas foi “Skyline Pigeon” que proporcionou uma das conexões mais específicas com o público brasileiro. Antes de tocar a música, Elton explicou que aquele era um caso particular: segundo ele, o Brasil é o lugar onde a canção se tornou especialmente popular. A faixa ganhou notoriedade no país depois de integrar a trilha da novela “Carinhoso”, exibida pela TV Globo em 1972, e passou a ocupar um lugar especial em seus repertórios brasileiros.
skyline pidgeon é propriedade do brasil e o elton john sabe disso!!!!#EltonJohnNoMultishow #RockinRioNoMultishow pic.twitter.com/UU5CgewhG7
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E então veio “Your Song”. Colocar a música no encerramento é uma escolha quase inevitável, mas continua sendo eficaz justamente porque sua simplicidade contrasta com a dimensão monumental do espetáculo. Elton sentado ao piano, acompanhado por milhares de vozes, transformou uma composição originalmente íntima em um encerramento coletivo. O público cantou praticamente cada palavra, deixando que a própria plateia completasse aquilo que o artista havia começado quase seis décadas atrás.
CHORANDO MUITO COM YOUR SONG#EltonJohnNoMultishow #RockinRioNoMultishow pic.twitter.com/ImyovMo04R
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Elton John chegou ao Rock in Rio carregando uma história que não cabe em uma única apresentação. Ainda assim, conseguiu condensá-la em um repertório que alternou piano e banda, intimidade e grandiosidade, melancolia e celebração. A história foi selada, e tivemos o privilégio de fazer parte dela.


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