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No Rock in Rio, Gilberto Gil reafirma a força de uma obra em constante transformação

Aos 84 anos, artista revisitou clássicos, dialogou com tecnologia, homenageou Rita Lee e Barão Vermelho e mostrou por que sua música permanece atravessando gerações

Créditos: Bianca / @shotby.bianca para ASetlist

Existe algo particularmente simbólico em ver Gilberto Gil no Palco Mundo do Rock in Rio em um 7 de setembro. Mais de quatro décadas depois de sua estreia na primeira edição do festival, em 1985, o cantor voltou à Cidade do Rock para uma apresentação que reuniu diferentes momentos de sua trajetória e, ao mesmo tempo, reafirmou sua capacidade de dialogar com o presente. Aos 84 anos, depois de concluir a turnê “Tempo Rei”, Gil subiu ao palco sem transformar a ocasião em uma retrospectiva convencional. O repertório, a cenografia e as escolhas musicais mostraram um artista interessado menos em organizar o próprio passado do que em colocá-lo novamente em circulação.

O retorno ao festival já seria significativo por si só. Gil está entre os poucos artistas que participaram de seis edições do Rock in Rio, e sua relação com o evento remonta àquele momento de 1985 em que o festival ainda era uma novidade no calendário cultural brasileiro. Quarenta anos depois, o evento se transformou em um dos maiores festivais de música do mundo e Gil, de certa maneira, também. Sua presença no palco principal estabeleceu uma ponte direta entre diferentes épocas do festival e da própria música brasileira.

A escolha das primeiras músicas deixou clara a proposta. Em vez de abrir com um de seus maiores sucessos, Gil começou com “Cérebro Eletrônico” e “Pela Internet”, duas composições que estabelecem uma relação direta entre sua obra e as transformações tecnológicas. A escolha é reveladora porque apresenta, logo de saída, uma característica fundamental do artista: a curiosidade diante das mudanças do mundo. “Cérebro Eletrônico”, composta nos anos 1960, e “Pela Internet”, lançada três décadas depois, pertencem a momentos tecnológicos completamente diferentes, mas partem de uma mesma disposição para observar o futuro e transformá-lo em música.

“Cérebro Eletrônico” continua funcionando porque a questão central da composição nunca foi simplesmente a existência das máquinas. Gil estava interessado na relação entre tecnologia, inteligência e humanidade. Décadas depois, “Pela Internet” atualizou essa inquietação para um mundo conectado. Colocar as duas músicas no começo do espetáculo criou quase uma linha do tempo da própria curiosidade do artista: da máquina imaginada ao ambiente digital que passou a fazer parte do cotidiano.

Depois desse início mais conceitual, o repertório abriu espaço para algumas das canções que se tornaram inseparáveis da trajetória de Gil. “Andar com Fé” e “Toda Menina Baiana” levaram o público imediatamente para um território de reconhecimento coletivo. São músicas que dispensam apresentação e que, ao vivo, funcionam como grandes pontos de encontro entre artista e plateia. O público não precisa apenas reconhecer as melodias: reconhece também a maneira como elas passaram a fazer parte da cultura brasileira.

“Andar com Fé” tem uma força particular nesse contexto. A música combina simplicidade melódica com uma mensagem que atravessou diferentes momentos da história brasileira, e seu refrão possui uma capacidade quase instantânea de transformar uma multidão em coro. Em um festival desse tamanho, a canção deixa de ser apenas uma composição de Gil e passa a funcionar como um patrimônio afetivo compartilhado por milhares de pessoas.

“Toda Menina Baiana” cumpre função semelhante, mas com outra energia. O ritmo, a identidade baiana e a celebração presentes na música devolvem ao show uma dimensão corporal que contrasta com a reflexão tecnológica do começo. É uma das qualidades mais marcantes da obra de Gil: conseguir passar de uma discussão sobre tecnologia para uma celebração da identidade brasileira sem que nenhuma dessas faces pareça deslocada.

A partir daí, o repertório continuou atravessando diferentes territórios musicais. “Rebel Music”, de Bob Marley, reforçou a relação histórica de Gil com o reggae e com a música de protesto; “Vamos Fugir” retomou uma das canções mais populares de sua trajetória; “Realce” e “Palco” ampliaram o caráter festivo da apresentação. A setlist mostrou, portanto, um artista que nunca se limitou a uma única definição de gênero e que atravessa reggae, samba, rock, frevo e MPB com a naturalidade construída ao longo de décadas.

A escolha de “Rebel Music” diz muito sobre essa trajetória. A relação de Gil com a música jamaicana não é meramente estética. Ao longo de sua carreira, ele incorporou o reggae à música brasileira de maneira particular, transformando referências internacionais em parte de uma linguagem própria. A presença de Bob Marley no repertório funciona, assim, menos como um cover isolado e mais como reconhecimento de uma afinidade artística que atravessa sua obra.

“Vamos Fugir” segue por outro caminho, mas mantém essa ideia de diálogo internacional. A canção tornou-se um dos grandes sucessos de Gil e ganhou novas leituras ao longo do tempo. No Rock in Rio, funciona como uma daquelas músicas que não precisam ser explicadas: a plateia reconhece imediatamente e responde cantando.

Já “Palco” possui um significado quase metalinguístico em uma apresentação como essa. Gil canta sobre o palco enquanto está, literalmente, em um dos maiores palcos de música do país. A canção ganha uma camada adicional justamente por ser apresentada em um contexto que reúne boa parte da história de sua relação com grandes públicos.

O repertório também incorporou músicas de outros artistas. “Ovelha Negra”, de Rita Lee, e “Pro Dia Nascer Feliz”, do Barão Vermelho, ampliaram o espetáculo para além da autobiografia musical de Gil. Em vez de construir uma apresentação exclusivamente centrada em seus próprios sucessos, o cantor abriu espaço para homenagear colegas que também ajudaram a formar a música brasileira.

A escolha de Rita Lee tem um peso especial. Gil e Rita pertencem a gerações diferentes, mas suas trajetórias compartilham uma característica fundamental: ambos compreenderam a música popular como espaço de liberdade, experimentação e diálogo com o mundo. “Ovelha Negra”, na voz de Gil, ganha justamente essa dimensão de homenagem entre artistas que nunca precisaram pertencer ao mesmo gênero para compartilhar uma mesma atitude diante da criação.

“Pro Dia Nascer Feliz”, por sua vez, aproxima Gil do rock brasileiro de maneira direta. O Barão Vermelho já havia ocupado espaço no próprio festival em outras edições, e a presença da música no repertório reforça uma ideia importante sobre o Rock in Rio: a história do evento também é feita pelas fronteiras que deixam de existir entre gêneros.

Esse repertório heterogêneo é uma das maiores forças do show. Gil não precisa escolher entre ser o compositor de MPB, o artista tropicalista, o músico de reggae ou o cantor que dialoga com o rock. Todas essas identidades coexistem porque foram construídas ao longo de uma carreira em que a curiosidade sempre foi mais importante do que a classificação.

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