Após 35 anos, banda lotou o Palco Sunset ao lado de Guilherme Arantes e mostrou que seu repertório continua atravessando gerações, agora também marcado pela memória de Paulinho
Poucos artistas que passaram pelo Rock in Rio carregam uma relação tão direta com a história do festival quanto o Roupa Nova. A banda foi responsável por gravar a música que se transformaria em um dos temas mais reconhecíveis do evento. Trinta e cinco anos depois de sua única apresentação no festival, o grupo voltou à Cidade do Rock nesta segunda-feira (7), no Palco Sunset, e encontrou uma plateia que conhecia suas músicas muito antes de elas começarem a tocar.
O retorno ganhou ainda mais significado porque não se tratava de reproduzir um show de repertório. O Roupa Nova chegou ao Sunset com mais de quatro décadas de carreira e uma formação transformada pela morte de Paulinho, em 2020. Atualmente, Serginho Herval, Nando, Kiko, Ricardo Feghali e Cleberson Horsth dividem o palco com Fábio Nestares nos vocais, mantendo a identidade construída pelo grupo ao longo de décadas.
A ausência de Paulinho poderia ter transformado o reencontro em uma apresentação dominada pela falta. A banda, porém, encontrou outro caminho: fazer da memória uma parte do espetáculo sem permitir que ela apagasse o presente. O resultado foi um show que lotou o Sunset e emocionou justamente porque as canções continuaram funcionando como ponto de encontro entre diferentes momentos da trajetória do grupo.
Essa sensação aparece com força quando o repertório começa a atravessar algumas das músicas que ajudaram a definir a história do Roupa Nova. “Sapato Velho”, “A Viagem”, “Dona”, “Volta Pra Mim”, “Seguindo no Trem Azul”, “Whisky a Go-Go” e “Coração Pirata” não são apenas sucessos da discografia: são canções incorporadas ao imaginário popular brasileiro. Muitas delas chegaram ao público também através das trilhas de televisão, ampliando enormemente o alcance da banda para além do mercado fonográfico.
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É justamente aí que a longevidade do Roupa Nova se torna mais evidente. A banda conseguiu construir um repertório que não depende de uma única geração para ser reconhecido. Quem acompanhou o grupo desde os anos 1980 tem suas próprias memórias associadas às músicas; quem cresceu nas décadas seguintes provavelmente as encontrou em novelas, programas de televisão, rádios ou na própria família. No Rock in Rio, essas camadas de memória se encontraram diante do mesmo palco.
Um show que pertence ao festival
Existe uma ironia bonita no retorno do Roupa Nova: a banda poderia ter usado o Rock in Rio apenas como mais uma parada de sua agenda, mas a própria história do grupo tornou isso impossível. Antes mesmo de subir ao palco, sua presença já estava conectada ao festival por uma música que atravessou quatro décadas. Em 1985, a banda gravou o tema que se tornaria uma espécie de assinatura sonora do Rock in Rio, uma conexão que permaneceu mesmo durante os anos em que o grupo esteve distante da programação do evento.
A apresentação, portanto, funcionou quase como uma conversa entre duas histórias que cresceram paralelamente. O Rock in Rio mudou de tamanho, estética, público e proposta ao longo das décadas; o Roupa Nova também passou por diferentes fases, perdeu um de seus integrantes mais emblemáticos e continuou em atividade. Quando os dois se reencontraram, a sensação não era apenas de retorno de uma banda, mas de recuperação de uma parte da memória do próprio festival.
E o palco escolhido reforçou essa ideia. O Sunset vem assumindo, nesta edição, uma função particularmente interessante dentro da programação: colocar lado a lado artistas de diferentes gerações e construir encontros que dificilmente aconteceriam em uma programação convencional. O Roupa Nova com Guilherme Arantes se encaixou perfeitamente nessa proposta.
Guilherme Arantes, aliás, não apareceu como uma participação aleatória para acrescentar um nome conhecido ao cartaz. Sua presença estabeleceu uma conexão natural entre compositores e intérpretes que ajudaram a definir a música brasileira popular das últimas décadas. Para ele, era também uma estreia no Rock in Rio; para o Roupa Nova, uma oportunidade de transformar o retorno ao festival em um encontro entre histórias que já estavam conectadas muito antes daquela tarde.
A participação do cantor e compositor acrescentou justamente aquilo que o conceito do show precisava: diálogo. Em vez de interromper a narrativa do Roupa Nova, Guilherme Arantes passou a fazer parte dela, reforçando a ideia de que o repertório do grupo não existe isoladamente, mas dentro de uma tradição muito maior da música brasileira. O resultado foi menos um show de convidados e mais um encontro entre artistas que compartilham uma mesma capacidade de transformar melodias em memória coletiva.
A memória de Paulinho
Se Guilherme Arantes representava o encontro entre diferentes trajetórias, Paulinho representava aquilo que não pode mais estar fisicamente no palco. A homenagem ao cantor, morto em 2020, ganhou uma força especial porque a apresentação aconteceu justamente um dia depois da data em que ele completaria 74 anos. A banda fez questão de colocá-lo novamente dentro daquele reencontro, e a homenagem se tornou um dos momentos mais emocionantes do espetáculo.
Esse tipo de homenagem poderia facilmente cair no sentimentalismo, especialmente em uma banda cujo repertório já carrega forte componente afetivo. O Roupa Nova, porém, parece ter entendido que preservar Paulinho não significa congelar o grupo no passado. A melhor forma de homenageá-lo é justamente continuar tocando as músicas que ajudaram a construir sua história.
Quando o pop também é rock
A presença do Roupa Nova no Rock in Rio sempre provoca uma discussão que parece mais antiga do que necessária: afinal, a banda é rock? A resposta mais interessante está menos no rótulo e mais na trajetória musical. O grupo surgiu no final dos anos 1970 e desenvolveu uma sonoridade influenciada pelo rock de rádio, pelo AOR e por harmonias vocais sofisticadas antes de se tornar conhecido principalmente por suas baladas e pelo pop romântico.
Reduzir o Roupa Nova às baladas, portanto, significa ignorar uma parte significativa de sua construção musical. A banda sempre trabalhou com arranjos elaborados, instrumentistas experientes e uma preocupação evidente com harmonias. A popularidade nunca foi consequência de simplificação musical; pelo contrário, foi justamente a capacidade de transformar arranjos sofisticados em canções imediatamente acessíveis que permitiu ao grupo alcançar públicos tão amplos.
Essa característica permanece importante ao vivo. O repertório pode ser conhecido de cor, mas isso não significa que seja simples. Há uma arquitetura musical por trás dessas canções que ajuda a explicar sua longevidade. O Roupa Nova não construiu sua carreira apenas com refrões fáceis; construiu uma linguagem que tornou esses refrões reconhecíveis.



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