Em projeto inédito no Palco Sunset, cantor levou clássicos de Stevie Wonder, The Temptations e Smokey Robinson para um público acostumado a reconhecê-lo pelo samba e pelo pagode, e mostrou que essas linguagens sempre estiveram mais conectadas do que parecem
Péricles chegou ao Palco Sunset nesta segunda-feira (7) diante de um desafio que ia muito além de cantar músicas conhecidas. Em “Péricles Canta Motown”, projeto criado especialmente para o Rock in Rio, o cantor deixou momentaneamente o repertório pelo qual se tornou uma das principais vozes do samba e do pagode para mergulhar no catálogo de uma das gravadoras mais importantes da história da música negra. A proposta poderia parecer distante de sua trajetória à primeira vista, mas bastaram as primeiras interpretações para que a conexão ficasse evidente: o soul, o R&B e o funk norte-americano estão muito mais próximos da formação musical de Péricles e do próprio pagode brasileiro, do que a divisão entre gêneros costuma sugerir.
O projeto foi pensado pelo curador artístico Zé Ricardo como uma das apresentações especiais desta edição do festival. Antes do Rock in Rio, Péricles passou por um período de preparação ao lado do maestro Maurício Piassarollo, trabalhando sobre um repertório de 13 músicas que incluía clássicos como “Superstition”, de Stevie Wonder, “My Girl”, dos Temptations, e “Cruisin’”, de Smokey Robinson. O próprio cantor explicou que a preocupação era fazer uma releitura fiel das canções sem abandonar sua maneira de interpretar, uma combinação que acabou sendo fundamental para que a homenagem não soasse como uma simples reprodução de clássicos norte-americanos.
Essa escolha foi particularmente acertada porque Péricles não tentou se transformar em outra pessoa no palco. O timbre grave e a maneira de frasear que o público reconhece de seus trabalhos no samba continuaram presentes, mas encontraram espaço em arranjos marcados pelo soul. O resultado não foi uma tentativa de imitar Stevie Wonder, Marvin Gaye ou os Temptations, mas de entender essas músicas a partir de uma voz brasileira que também foi formada pela música negra. É aí que o conceito deixa de ser apenas um tributo e passa a funcionar como uma espécie de diálogo entre duas tradições.
Motown e o pagode nunca estiveram tão distantes
Existe uma leitura histórica importante por trás da escolha de Péricles. A Motown, criada em Detroit no fim dos anos 1950, ajudou a transformar a música negra norte-americana em um fenômeno global ao reunir artistas como Stevie Wonder, Marvin Gaye, The Temptations, The Supremes e The Jackson 5. Sua influência ultrapassou fronteiras e chegou também ao Brasil, onde a soul music, o funk e o R&B encontraram diferentes formas de expressão em bailes, na música popular e, posteriormente, no pagode que explodiu comercialmente nos anos 1990.
É justamente essa ponte que Péricles colocou no centro do espetáculo. O pagode que marcou sua formação não surgiu em uma bolha isolada do samba tradicional. Ele também foi alimentado pela escuta de artistas negros norte-americanos e pela cultura dos bailes, criando uma linguagem brasileira que combinava percussão, melodias pop, harmonias sofisticadas e uma maneira particular de cantar. Quando Péricles interpreta uma música da Motown, portanto, não está necessariamente saindo de seu universo: está retornando a uma de suas fontes.
simplesmente uma MULTIDÃO pra assistir o péricles cantando motown no palco sunset.#PériclesNoMultishow #RockinRioNoMultishow pic.twitter.com/HDTBoA0Bbg
— Multishow (@multishow) September 7, 2026
“My Girl” sintetiza bem essa relação. O clássico dos Temptations, lançado em 1964, é construído sobre uma melodia extremamente reconhecível e sobre a força das harmonias vocais que se tornaram uma das marcas da Motown. Na interpretação de Péricles, a música ganha outra textura sem perder sua essência. O cantor não tenta reproduzir exatamente a dinâmica do grupo norte-americano; ele coloca sua própria experiência vocal sobre uma canção que, de certa maneira, ajudou a estabelecer uma linguagem que atravessaria décadas e continentes.
“Superstition”, de Stevie Wonder, leva essa conversa para outro território. A música exige precisão rítmica, presença vocal e uma compreensão muito particular do groove, e é justamente nesse terreno que Péricles demonstra segurança. O cantor conhece o peso que uma divisão rítmica pode ter e entende como colocar a voz dentro dela sem transformar a interpretação em uma disputa com os instrumentos. O resultado é uma leitura que respeita a estrutura original, mas ganha personalidade própria.
coisa de louco o péricles cantando superstition, do stevie wonder!!!#PériclesNoMultishow #RockinRioNoMultishow pic.twitter.com/oBZ4ua1fTa
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“Cruisin’”, de Smokey Robinson, acrescenta uma camada diferente ao repertório. Mais suave e romântica, a música permite que Péricles explore o lado mais melódico de sua interpretação e mostre que o projeto não dependia apenas das faixas mais explosivas. A escolha também reforça a amplitude do universo da Motown, que nunca esteve limitado a uma única fórmula sonora. Havia soul, pop, R&B, baladas e diferentes maneiras de construir canções para públicos distintos.
A voz como ponto de conexão
Se existe um elemento capaz de costurar todo o espetáculo, é a voz de Péricles. Sua trajetória no samba e no pagode o colocou entre os intérpretes brasileiros com maior domínio sobre melodias sentimentais, harmonias e diferentes possibilidades de fraseado. Levar essas características para um repertório de soul não exigiu uma transformação radical; exigiu apenas deslocar o contexto em que elas eram utilizadas.
Essa talvez seja a principal razão pela qual o projeto funcionou tão bem. Péricles não tentou provar que também consegue cantar soul, ele simplesmente cantou. A técnica já estava presente em sua trajetória. O que mudou foi o repertório, e essa mudança revelou uma faceta que nem sempre aparece quando o artista está concentrado nos grandes sucessos de sua carreira.
O próprio Rock in Rio apresentou o projeto como uma nova dimensão do artista, destacando justamente seu timbre grave, sua afinação e sua afinidade com o soul. O festival tratou a apresentação como uma oportunidade de mostrar uma faceta diferente de Péricles, mas a reação do público mostrou que essa “nova faceta” talvez estivesse ali há bastante tempo, apenas esperando o repertório certo para aparecer.



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