Desde 2010 na ativa, o Bayside Kings construiu uma trajetória que vai muito além dos limites geográficos de Santos (SP) — cidade onde a banda nasceu — ou mesmo das fronteiras do hardcore punk. Em conversa com a asetlist, Milton Aguiar (vocal) e Matheus (guitarra) falaram sobre identidade, amadurecimento, a entrada para o time da Deck e o significado por trás do novo single, “NADA PRA MIM”, que marca mais um passo importante dessa caminhada.
Para Milton, olhar para trás é reconhecer que, apesar das mudanças e dos novos caminhos, alguns pilares nunca se perderam. “A principal vontade que a gente tinha como banda era fazer algo que fosse maior do que nós como indivíduos”, afirma. “Construir coisas que, daqui a alguns anos, a gente consiga olhar para trás e sentir orgulho. Como aquelas bandas que, às vezes, nem existem mais, mas continuam existindo através do som, da mensagem, do legado.”
Matheus complementa destacando que as poucas mudanças de formação ao longo dos anos também ajudaram a moldar esse momento atual. “A gente começou como uma banda de dois guitarristas e hoje é uma banda de um guitarrista só. Todas essas mudanças foram aprendizado. Hoje, a gente é uma banda muito mais madura.”
Esse amadurecimento se reflete diretamente no novo capítulo que o Bayside Kings começa a escrever com a Deck, parceria que, segundo Milton, surgiu no momento certo. “A conversa com a Deck já tinha acontecido outras vezes no passado, mas dessa vez foi diferente. A gente sentiu que era o momento ideal.” Para além da estrutura de uma gravadora, há uma admiração clara pelo trabalho desenvolvido ali, especialmente na área de produção. “Muitos discos que influenciam o Bayside Kings têm produção do Rafa. O desafio agora é: como deixar o Bayside Kings mais palpável sem perder o DNA selvagem da banda?” mesmo buscando furar bolhas e alcançar novos públicos, a essência nunca esteve em negociação. “A gente quer sair do nicho, quer levar a mensagem mais longe, mas sem perder de onde veio. E eu vejo que a Deck tem essa virtude: as bandas crescem, mas não perdem a identidade.”
Outro ponto central da conversa foi a decisão de passar a cantar em português, uma virada que redefiniu a relação da banda com o público. Milton relembra que o estalo veio em 2018, após um comentário simples, mas certeiro, de um amigo: “Ele falou: ‘Tá vendo todo mundo cantando em inglês? Imagina se fosse em português o quanto isso poderia ser maior’.”
A mudança, no entanto, não veio sem receios. “Todas as nossas influências vinham de bandas em inglês. E a gente percebeu que estava criando mais barreiras do que proximidade”, explica Milton. “Vivendo no Brasil, viajando o país inteiro, entendemos que a mensagem precisava ser direta. A arte em inglês afastava mais gente do que aproximava.”
Além da barreira linguística, havia o desafio criativo. “O português é uma língua difícil de se tornar cantável. A gente teve que buscar referências fora do hardcore, mergulhar em hip hop, rap, MPB, sons urbanos. Isso também faz parte do meu DNA”, conta o vocalista. A decisão acabou se tornando um divisor de águas. “Foi o nosso primeiro grande acerto.”
Milton admite que a resistência existiu até o último momento. “A gente tinha medo da letra soar genérica. Em inglês, muita coisa passa. Em português, o olhar é mais crítico.” Mas a resposta do público foi imediata. “A recepção foi muito melhor. Do primeiro single em português pra frente, a gente não teve mais dúvida nenhuma.”
Essa transformação abriu novos horizontes. “Antes, a gente era o nicho do nicho”, diz Milton. “O português trouxe muita gente nova, trouxe mais sede, mais vontade de experimentar, sem mudar quem a gente é.” Esse espírito está totalmente presente em “NADA PRA MIM”, single que fala sobre romper com julgamentos, escolher batalhas e preservar energia. Para Milton, a letra nasce de uma necessidade pessoal de deixar limites claros. “É sobre saber onde estou pisando. Eu escolho minhas guerras, escolho onde coloco minha energia. O que vem na contramão, eu simplesmente não abraço mais.”
A música também dialoga diretamente com críticas e resistências enfrentadas pela banda ao longo dos anos. Matheus observa que, apesar do discurso de acolhimento, a cena hardcore muitas vezes se fecha. “A gente sempre tentou furar bolhas, tocar com bandas diferentes, circular por outros espaços. E isso incomoda. Tem gente que desvaloriza porque acha que você fugiu do nicho.”
Milton vai além e vê nisso um papel provocador. “Se o meio é libertário, por que eu não posso atravessar, conhecer outras ideias, outras pessoas? O mundo é muito grande.” Para o Bayside Kings, ocupar novos espaços também é um ato político. “A gente gosta de ser o batimento feio dos lugares, de chocar. De levar a nossa vivência para outros contextos.”
“NADA PRA MIM” surge, então, como um manifesto direto, sem rodeios, um retrato fiel do momento atual do Bayside Kings, que olha para frente com ambição, consciência e a certeza de que sua mensagem ainda tem muito chão para percorrer.

0 Comentários