ENTREVISTA: Lia de Itamaracá e Daúde transformam encontro em travessia musical no álbum Pelos Olhos do Mar

 

O encontro entre Lia de Itamaracá e Daúde não nasce do acaso, mas de uma insatisfação criativa compartilhada. Depois de anos dividindo palcos, participações pontuais e colaborações esporádicas, as duas artistas sentiram que aquilo já não bastava. Faltava mergulho. Faltava profundidade. Foi desse desejo de ir além que surgiu Pelos Olhos do Mar, um álbum que não apenas registra uma parceria, mas materializa uma travessia afetiva, cultural e musical entre duas mulheres fundamentais da música brasileira.


Créditos: Ravaneli Mesquitta

Daúde, cantora com seis álbuns lançados e uma carreira marcada pelo diálogo entre tradição e contemporaneidade, sempre teve um olhar atento para os mestres e mestras da cultura popular. Lia de Itamaracá, por sua vez, é sinônimo de resistência: cirandeira, compositora, atriz e guardiã de saberes que atravessaram gerações, tecnologias e formatos da indústria cultural. “A valorização da Lia não é de agora”, afirma Daúde. “Ela sempre existiu. Ela resistiu à fita cassete, ao CD, ao rádio, às redes sociais. É uma vida inteira dedicada à cultura popular.”


O ponto de virada veio quando as participações já não satisfaziam mais. “Era sempre aquela coisa de uma participar do show da outra, e isso começou a parecer pouco”, explica Daúde. A urgência de criar algo juntas falou mais alto — tanto que uma música inicialmente pensada para um álbum solo acabou se tornando o embrião do projeto coletivo. Assim nasceu Pelos Olhos do Mar.


O disco reúne composições assinadas por nomes como Emicida e Chico César, pensadas especialmente para as vozes de Lia e Daúde. Para elas, não se trata de vaidade, mas de um momento oportuno e simbólico. “É um prazer escrever para uma mulher como a Lia, para um álbum como esse”, comenta Daúde, ressaltando o peso histórico, cultural e afetivo que o projeto carrega.



Entre os destaques do álbum está “Santo Antônio da Boa Fortuna”, faixa concebida como uma oração que conecta passado, presente e futuro. A música dialoga com a religiosidade popular nordestina, com suas novenas, festas de padroeiro, comidas típicas e memórias afetivas que fazem parte do imaginário das duas artistas. “Isso não é algo que a gente foi buscar. Está dentro da nossa vida, das nossas lembranças”, resume Daúde.


O repertório também revela lados nem sempre conhecidos de Lia, como sua relação com o bolero, além de revisitar gêneros como coco, ciranda e maracatu, que atravessam o álbum de forma orgânica. O equilíbrio entre raízes tradicionais e sonoridades contemporâneas — incluindo bases eletrônicas — acontece de maneira natural. “A base eletrônica não é protagonista. Ela é uma ferramenta”, explica Daúde. “O coco já tem identidade, já tem ritmo.”


Mais do que um disco, Pelos Olhos do Mar carrega uma mensagem de coletividade, resistência, feminilidade e negritude. Para Daúde, a responsabilidade não está apenas em quem cria, mas também em quem escuta. “Essa responsabilidade é coletiva. A música é prazer, mas também é consciência.”


A admiração mútua entre as duas transborda em cada fala. Lia destaca o respeito, o cuidado e o amor que unem esse encontro. Daúde reforça o quanto estar ao lado de Lia é um presente — uma confirmação de que buscar essas “realezas”, como ela define, faz sentido tanto artisticamente quanto na vida.


Com shows de lançamento passando por São Paulo, Taubaté e outras cidades, além de uma turnê pelo Nordeste em construção para o próximo ano, Pelos Olhos do Mar segue seu curso como uma obra que olha para o passado sem nostalgia, atravessa o presente com consciência e aponta para o futuro com firmeza — sempre guiada pelo olhar profundo e generoso dessas duas artistas.

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