Com chuva, atraso e um repertório que equilibrou sucessos e faixas menos óbvias, banda americana encerrou a noite do Palco Mundo reafirmando sua posição entre as principais forças do metal contemporâneo
O Avenged Sevenfold chegou ao fim do segundo dia de Rock in Rio carregando uma expectativa particularmente alta. Dois anos depois de fechar o Palco Mundo em uma apresentação que consolidou seu tamanho no festival, a banda americana retornou ao mesmo palco como atração principal de uma noite construída em torno do metal, desta vez depois de Sepultura, MGK e Bring Me The Horizon. A diferença é que, em 2026, o grupo precisou enfrentar um cenário menos favorável: a chuva persistente atrasou o início da apresentação, enquanto parte do público já deixava a Cidade do Rock depois de uma sequência de shows intensos. Ainda assim, M. Shadows, Synyster Gates, Zacky Vengeance, Johnny Christ e Brooks Wackerman fizeram da última apresentação da noite uma síntese de diferentes momentos da carreira.
O atraso fez com que o Avenged só começasse a tocar por volta de 0h35, cerca de meia hora depois do horário inicialmente previsto. Quando “Nightcall”, de Kavinsky, tomou conta do sistema de som, funcionou como uma introdução cinematográfica para “Nightmare”, que finalmente colocou a banda no palco. A escolha não poderia ser mais direta. Em vez de construir lentamente a apresentação, o grupo abriu com uma das músicas mais reconhecidas de sua trajetória e imediatamente estabeleceu o tom para uma noite em que o público teria de dividir espaço entre nostalgia, peso e experimentação.
“Nightmare” foi apenas o primeiro capítulo de um repertório que evitou transformar a apresentação em uma simples coletânea de sucessos. “Magic”, lançada originalmente em 2025, apareceu logo depois, antes de “Afterlife” e “Shepherd of Fire” recolocarem o show em território conhecido. A sequência mostrou uma banda confortável em transitar entre diferentes períodos de sua discografia sem precisar escolher entre o Avenged Sevenfold que conquistou o público nos anos 2000 e a formação que passou a experimentar mais abertamente com estruturas progressivas e eletrônicas.
o a7x já ARREBATANDO o rock in rio começando com nada mais nada menos que nightmare#AvengedSevenfoldNoMultishow #RockinRioNoMultishow pic.twitter.com/9yPlTsJa5V
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Essa característica ficou ainda mais evidente quando “The Stage” entrou no repertório. A faixa-título do álbum de 2016 representa um dos momentos em que o Avenged decidiu se afastar deliberadamente da fórmula mais acessível que havia consolidado em Hail to the King. No Rock in Rio, ela apareceu ao lado de “Buried Alive” e “Seize the Day”, criando uma espécie de ponte entre a ambição progressiva do grupo e seu lado mais melódico. Não era necessariamente a seleção mais óbvia para um festival, mas ajudava a apresentar uma banda que, mesmo diante de um público enorme, não parece interessada em reduzir sua identidade ao que é mais fácil de reconhecer.
O repertório também mostrou como Hail to the King continua ocupando um lugar importante na relação do grupo com grandes plateias. “Shepherd of Fire” e “Hail to the King” têm uma construção quase monumental, com riffs e refrões pensados para funcionar em escala de arena, e encontraram no Palco Mundo um ambiente natural. Ao mesmo tempo, “Nobody”, de Life Is But a Dream..., levou a apresentação para uma direção completamente diferente. A faixa representa a fase mais experimental do Avenged e reforça que a banda ainda tenta expandir suas fronteiras mesmo quando está diante de um público que poderia facilmente exigir apenas os clássicos.
hail to the king é HINO DE UMA GERAÇÃO#AvengedSevenfoldNoMultishow #RockinRioNoMultishow pic.twitter.com/ALExDBQhW1
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Mas a relação com o público foi um dos pontos mais complexos da noite. O Bring Me The Horizon havia acabado de deixar o palco depois de uma apresentação extremamente participativa, marcada por mosh pits, interação constante de Oliver Sykes e uma conexão imediata com a plateia. O Avenged Sevenfold, por sua vez, adotou uma postura mais concentrada na execução e na construção do espetáculo. A diferença de abordagem fez com que a resposta parecesse menos explosiva em alguns momentos, algo que também foi percebido por parte da imprensa presente no festival.
Isso não significa, porém, que tenha faltado público ou repertório para sustentar o encerramento. “Afterlife”, “Nightmare”, “Hail to the King” e “M.I.A.” representam diferentes gerações de fãs do Avenged e funcionaram como pontos de reconhecimento dentro de uma apresentação que não se limitou aos hits. O grupo parecia menos interessado em disputar diretamente com a energia deixada pelo BMTH e mais disposto a reafirmar sua própria linguagem menos baseada na interação constante e mais na força de uma banda que conhece profundamente a dimensão de seus arranjos.
M. Shadows também precisou lidar com um assunto que havia atravessado as redes sociais antes mesmo de a banda subir ao palco. Durante o dia, a recepção dividida a MGK havia provocado discussões entre fãs sobre quem deveria ou não ocupar o espaço do chamado “dia do metal”. O vocalista aproveitou a apresentação para defender justamente o contrário: em vez de transformar o gênero em uma disputa entre gerações ou estilos, falou sobre a necessidade de união entre artistas como MGK, Bad Omens, Poppy e Bring Me The Horizon. A fala ganhou importância porque o próprio festival havia construído sua noite sobre essa diversidade de interpretações do rock pesado.
o m shadows pediu pra você 🫵 aqui do site celebrar bmth, mgk, poppy, bad omens, sepultura e todo mundo que tocou hoje no rock in rio ok#AvengedSevenfoldNoMultishow #RockinRioNoMultishow pic.twitter.com/aMcw4lXdMs
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E essa talvez seja uma das principais leituras possíveis da noite. O Rock in Rio não colocou bandas que soam iguais no mesmo palco. Sepultura representa uma das raízes mais importantes do metal brasileiro; MGK transita entre rap, emo e pop punk; Bring Me The Horizon transformou metalcore em uma linguagem que absorve pop, eletrônica e elementos industriais; e o Avenged Sevenfold ocupa um espaço próprio entre o heavy metal, o metalcore e o rock progressivo. Ao defender essa convivência, Shadows acabou traduzindo em palavras uma característica que o próprio festival tentou construir ao longo do dia.
Musicalmente, o Avenged teve ainda o mérito de não esconder suas ambições. “The Stage”, “Nobody” e “Magic” dividiram espaço com músicas que já pertencem ao imaginário coletivo dos fãs, enquanto “Seize the Day” e “Buried Alive” acrescentaram momentos de maior respiro a uma apresentação predominantemente pesada. A escolha de “M.I.A.” para encerrar o repertório principal também recuperou uma faixa de City of Evil, lembrando que a história da banda é consideravelmente maior do que os dois ou três discos mais conhecidos pelo público geral.
O encerramento, no entanto, ganhou uma dimensão diferente. “Cosmic”, de Life Is But a Dream..., fechou a apresentação em meio a fogos e efeitos pirotécnicos, enquanto parte do público já começava a deixar o Parque Olímpico. A escolha é coerente com a trajetória recente da banda: em vez de terminar necessariamente com o maior hit possível, o Avenged preferiu uma música que representa sua fase mais contemplativa e experimental. Para uma banda que poderia facilmente se apoiar apenas na nostalgia, terminar olhando para frente é uma decisão que diz bastante sobre o momento atual do grupo.
É CÓSMICO! 💫 chega ao fim o show do Avenged Sevenfold no Palco Mundo ao som de 'Cosmic' #AvengedSevenfoldNoGloboplay #RockInRioNoGloboplay pic.twitter.com/BFTAaDSCPn
A apresentação talvez não tenha repetido o impacto imediato de sua passagem anterior pelo Rock in Rio, e comparar os dois shows é inevitável. Mas reduzir o desempenho de 2026 a essa comparação seria ignorar o que a banda escolheu fazer naquela noite. Sob chuva, depois de um atraso e diante de uma plateia que havia acabado de testemunhar um dos shows mais participativos do festival, o Avenged Sevenfold não tentou reproduzir o passado. Preferiu apresentar um repertório que reconhece seus clássicos, mas também reivindica espaço para a fase experimental que marca sua produção mais recente.

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