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MGK enfrenta resistência no Rock in Rio, mas encontra seu público entre o pop punk e a vulnerabilidade

Em um dos horários mais difíceis do Palco Mundo, cantor transitou entre rap, emo e pop punk, apostou no espetáculo visual e precisou lidar com uma plateia que, em boa parte, esperava pelos próximos shows da noite

Créditos: MORIVA / @ALEXWOLOCH

A estreia de MGK no Rock in Rio aconteceu em um dos cenários mais ingratos possíveis para um artista que ainda precisa conquistar parte do público brasileiro: às 19h, entre Sepultura e Bring Me The Horizon, com Avenged Sevenfold esperando para fechar a noite. Em vez de encontrar uma Cidade do Rock inteiramente voltada para sua apresentação, Colson Baker subiu ao Palco Mundo diante de uma plateia dividida entre quem estava ali por ele e quem já ocupava espaço para os dois grandes nomes seguintes. O resultado foi um show marcado menos pela unanimidade e mais pelo esforço do cantor em estabelecer uma conexão em território pouco favorável.

A própria construção visual da apresentação deixava claro que MGK não pretendia fazer uma passagem discreta pelo festival. Uma enorme cabeça da Estátua da Liberdade dominava o cenário, enquanto dançarinas vestidas de couro acompanhavam o cantor e reforçavam uma estética que mistura referências do punk, do hip hop e da cultura pop. No corpo, o artista apareceu com a tatuagem blackout coberta por pintura branca, além de piercings, brincos e grills, elementos que ajudam a traduzir visualmente a trajetória de um músico que começou no rap antes de transformar o pop punk em uma das principais marcas de sua carreira.

Musicalmente, a apresentação também recusou uma definição única. “FIX UR FACE”, parceria com Fred Durst, abriu o repertório, seguida por “WWIII” e “Till I Die”, antes de MGK mergulhar de vez na fase que o tornou um dos nomes mais populares do pop punk contemporâneo. “I Think I’m OKAY”, “maybe”, “bloody valentine”, “forget me too” e “concert for aliens” trouxeram para o Palco Mundo uma sonoridade construída sobre guitarras, refrões imediatos e referências que passam pelo emo e pelo punk dos anos 2000. “my ex’s best friend”, que encerrou a apresentação, reforçou a força dessa fase junto ao público que acompanhou mais de perto sua transformação artística.

É justamente aí que o show encontra sua principal força e também sua principal limitação. MGK conhece profundamente a linguagem do pop punk que ajudou a recolocar no centro da cultura pop no início desta década, e músicas como “Bloody Valentine” e “Concert for Aliens” têm uma capacidade quase instantânea de remeter à estética de uma geração inteira. O repertório soa familiar mesmo para quem não acompanha toda a carreira do cantor.

O momento mais revelador, entretanto, aconteceu quando o cantor interrompeu “I Think I’m OKAY” para falar diretamente com a plateia. Diante da resistência de parte do público, MGK abandonou momentaneamente a postura de rockstar e tentou explicar a importância de estar naquele palco, afirmando que, mesmo que aquelas pessoas não o amassem, ele amava todas elas. A declaração não transformou magicamente a recepção, mas acrescentou uma dimensão humana a uma apresentação que até então estava muito apoiada na persona, no figurino e na cenografia.

A banda, por sua vez, sustentou bem a proposta musical. Mesmo transitando entre gêneros e diferentes períodos da carreira, o show não pareceu depender exclusivamente dos recursos visuais para funcionar. A base pop punk apareceu com força nas músicas mais conhecidas, enquanto as faixas ligadas ao rap lembraram que a história de MGK não começou nas guitarras. Essa dualidade é justamente uma das características que fazem de sua carreira um caso particular dentro da música pop contemporânea: o artista não abandonou completamente sua origem para se transformar em outra coisa, mas passou a colocar diferentes versões de si no mesmo palco.

Ainda assim, algumas escolhas de performance envelheceram pior do que outras. Em determinados momentos, a tentativa de sustentar uma imagem provocadora e sexualizada pareceu mais presa ao imaginário dos anos 2000 do que propriamente conectada ao momento atual do artista. O contraste ficou evidente porque, quando MGK deixou a pose de lado, a apresentação ganhou espontaneidade e pareceu mais próxima do público.

Também é preciso considerar o contexto. O Rock in Rio posicionou MGK entre Sepultura e Bring Me The Horizon em uma noite construída em torno do rock pesado, ao lado de nomes como Bad Omens, Poppy e Avenged Sevenfold. A escalação ampliava a diversidade do chamado “dia do metal”, mas também colocava sobre o cantor a tarefa de fazer uma ponte entre públicos com expectativas bastante diferentes.

MGK não saiu dessa disputa como o grande vencedor do Palco Mundo, e seria exagero afirmar que conseguiu converter toda a plateia. Mas talvez a avaliação mais interessante esteja justamente em outro lugar. Em vez de tentar transformar a resistência em confronto, o cantor reconheceu o terreno difícil, continuou apresentando seu repertório e, em alguns momentos, mostrou uma vulnerabilidade que sua persona costuma esconder. Entre o rapper, o astro pop punk e o personagem de rockstar, foi o homem tentando convencer uma plateia que não estava necessariamente esperando por ele quem produziu o momento mais genuíno da apresentação.

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