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Jota Quest encontra suas próprias raízes em homenagem a Tim Maia no Rock in Rio

Em show que marcou a estreia ao vivo do projeto “Dance Enquanto É Tempo”, banda mineira revisitou o repertório do “síndico” e transformou o Palco Sunset em uma celebração de soul, funk e música brasileira

Créditos: MORIVA / @ALEXWOLOCH

Trinta anos depois de lançar seu primeiro álbum, o Jota Quest voltou ao Rock in Rio para fazer um movimento de retorno. Em vez de apresentar apenas os sucessos que construíram sua trajetória, a banda mineira escolheu revisitar a obra de Tim Maia, um dos principais artistas responsáveis por moldar a sonoridade que influenciou o grupo desde seus primeiros anos. O show “Jota Quest Toca Tim Maia”, apresentado neste domingo (6) no Palco Sunset, marcou a estreia ao vivo do projeto Jota Quest & Tim Maia – Dance Enquanto É Tempo e transformou a comemoração das três décadas de carreira em uma espécie de reencontro com a própria origem musical da banda.

A escolha de Tim Maia não funciona, portanto, como uma homenagem feita por conveniência. Existe uma conexão direta entre o repertório do cantor e a formação musical do Jota Quest. Quando o grupo surgiu, em 1996, a mistura de soul, funk, black music e pop ainda ocupava um espaço consideravelmente menor na música brasileira do que ocupa atualmente. Tim Maia estava entre as referências fundamentais de uma banda que buscava justamente aproximar essas linguagens do pop nacional. Três décadas depois, revisitar esse repertório permite ao Jota Quest olhar para a própria história sem precisar abandonar a identidade que construiu ao longo do caminho.

O projeto também carrega uma coincidência particularmente simbólica. Antes de se tornar Jota Quest, a banda era conhecida como J. Quest e teve contato com Tim Maia em 1998. Na época, o cantor chegou a brincar com os músicos e teria sugerido a mudança para o nome pelo qual o grupo ficaria conhecido. A relação foi breve, mas deixou uma marca suficientemente forte para que a ideia de um tributo permanecesse no imaginário da banda durante décadas. O próprio Rogério Flausino descreveu a relação como uma espécie de orfandade após a morte de Tim, justamente quando o grupo ainda começava sua trajetória profissional.

Essa história ajuda a explicar por que o repertório escolhido para o projeto não parece uma simples coleção de grandes sucessos. O álbum Dance Enquanto É Tempo reúne 16 faixas entre releituras e uma faixa construída a partir de depoimentos de Tim Maia, passando por clássicos como “Descobridor dos Sete Mares”, “Gostava Tanto de Você”, “Não Quero Dinheiro”, “Acenda o Farol”, “Réu Confesso”, “Vale Tudo”, “Sossego” e “Azul da Cor do Mar”. Ao lado delas, aparecem músicas menos óbvias e diferentes participações, ampliando o retrato do artista para além dos hits mais conhecidos.

O mérito do Jota Quest está justamente em não tentar transformar Tim Maia em outra coisa. Antes do lançamento, a banda deixou claro que a proposta era preservar a essência das gravações originais em vez de aplicar mudanças radicais de gênero ou transformar as músicas em versões completamente diferentes. O resultado mantém a base de soul e funk que caracteriza o repertório do cantor, mas naturalmente passa pelo filtro instrumental e vocal do Jota Quest. É uma homenagem que procura reconhecer a obra antes de tentar demonstrar criatividade sobre ela.

Essa escolha fica particularmente evidente na construção sonora do projeto. A produção musical assinada pelo baixista PJ trabalha com metais, backing vocals e percussão para recuperar parte da dimensão instrumental característica das gravações de Tim. O álbum foi produzido de forma analógica, sem a preocupação de adaptar as faixas às tendências determinadas pelos algoritmos atuais, reforçando a intenção de preservar uma sonoridade orgânica. No palco, essa característica ganha ainda mais sentido: o Jota Quest é uma banda acostumada a trabalhar com groove, e o repertório de Tim Maia oferece exatamente esse terreno.

“Descobridor dos Sete Mares” foi um dos pontos naturais de conexão com o público. A música pertence ao grupo de canções de Tim Maia que ultrapassaram completamente as fronteiras do soul e do funk e passaram a fazer parte do repertório popular brasileiro. Na versão do Jota Quest, a faixa mantém a estrutura reconhecível, mas ganha a dimensão de uma apresentação construída para um palco de festival. O público não precisa conhecer a proposta do álbum para participar: basta reconhecer os primeiros elementos da música.

O mesmo acontece com “Gostava Tanto de Você” e “Não Quero Dinheiro”. São canções que funcionam como memória coletiva, mas que também revelam o cuidado da banda em não transformar o tributo em uma apresentação excessivamente reverente. A interpretação assume outra personalidade e permite que o público escute aquelas músicas a partir da identidade de uma banda que cresceu justamente sob influência daquele repertório.

Um dos momentos mais significativos da apresentação veio com Tony Tornado. Aos 96 anos, o cantor e ator apareceu no palco para cantar “Sossego”, acompanhado pelo filho, Lincoln Tornado. A participação acrescentou uma dimensão histórica que dificilmente poderia ser reproduzida por qualquer outro convidado. Tony pertence à mesma história da soul music brasileira e também tem uma relação direta com o Jota Quest, tendo participado do primeiro álbum da banda, lançado em 1996.

A participação de Negra Li em “Descobridor dos Sete Mares” acrescentou outra camada importante ao tributo. A cantora, que construiu sua trajetória transitando entre rap, R&B e pop, encontrou no repertório de Tim Maia um ponto de conexão natural com a própria história musical. Ao dividir a faixa com o Jota Quest, Negra Li apareceu como representante de uma geração posterior de artistas que também ajudaram a ampliar o espaço da música negra na cena brasileira. 

O uso de vocais originais de Tim Maia em algumas faixas do projeto reforça essa sensação. Com o apoio e a anuência de Carmelo Maia, filho do cantor e responsável pelo espólio artístico, o Jota Quest incorporou registros da voz de Tim às novas gravações. Em “Acenda o Farol”, por exemplo, a voz original do cantor divide espaço com Rogério Flausino, criando um dueto que aproxima duas épocas sem tentar apagar a distância entre elas.

No palco do Rock in Rio, essa relação entre passado e presente ganhou uma dimensão ainda maior porque o festival também faz parte da história da banda. A trajetória do Jota Quest com o evento começou de maneira curiosa: o grupo chegou a recusar uma participação em 2001, quando estava confirmado na programação. Anos depois, tornou-se uma presença recorrente no festival e agora retorna para estrear justamente um projeto que revisita uma das principais referências de sua formação. É uma trajetória que transforma o show de 2026 em mais do que uma simples apresentação comemorativa.

Há, ainda, uma qualidade essencialmente física nesse repertório. Tim Maia sempre foi um artista de groove, e o Jota Quest também construiu parte importante de sua carreira a partir dessa capacidade de fazer a música se mover. O tributo funciona porque não transforma as canções em peças de museu. Elas continuam dançantes, continuam populares e continuam capazes de ocupar um festival de grande porte.

E o Palco Sunset ofereceu justamente o ambiente adequado para isso. Depois do BaianaSystem, que havia explorado outras matrizes da música brasileira a partir da Bahia, o Jota Quest levou o público para uma outra dimensão da música negra nacional, marcada pelo soul, pelo funk e pelo groove. A programação do palco construiu, assim, uma sequência de apresentações diferentes entre si, mas conectadas pela ideia de cruzamento entre referências e gerações.

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