Com a formação original reunida no Palco Mundo, banda revisitou clássicos de diferentes fases da carreira, relembrou a passagem de Cazuza e mostrou que seu repertório continua atravessando gerações
Poucos shows do Rock in Rio carregam uma relação tão direta com a própria história do festival quanto o Barão Vermelho. Em 1985, a banda subia ao palco da primeira edição do evento ainda com Cazuza nos vocais. Quarenta e um anos depois, Roberto Frejat, Guto Goffi, Maurício Barros e Dé Palmeira voltaram a ocupar o Palco Mundo juntos para um reencontro que tinha, desde o anúncio, um forte componente histórico. O desafio era transformar essa memória em um show que funcionasse no presente. E foi exatamente isso que aconteceu neste domingo (6).
A apresentação abriu o Palco Mundo do terceiro dia do Rock in Rio, dedicado principalmente ao pop, à música eletrônica e à nostalgia dos anos 2000. Antes de Nelly, Black Eyed Peas e Calvin Harris, o Barão Vermelho colocou no centro da Cidade do Rock uma parte fundamental da história do rock brasileiro. A chuva que acompanhou a tarde não afastou o público, e o repertório percorreu tanto a fase com Cazuza quanto os anos seguintes, quando Frejat assumiu definitivamente os vocais.
A primeira imagem já entregava que aquela não seria uma apresentação comum. Cazuza apareceu no telão logo no início, estabelecendo uma presença que atravessaria o espetáculo sem transformar o show em uma tentativa de reproduzir aquilo que já não pode existir. O Barão estava ali com sua formação original, mas não para recriar 1985. A proposta era revisitar uma história que continuou depois daquela primeira passagem pelo festival.
“Maior Abandonado”, “Pense e Dance” e “Bete Balanço” colocaram rapidamente o público diante de três momentos diferentes do repertório da banda. As músicas carregam características distintas, mas têm em comum a capacidade de sobreviver ao contexto em que foram lançadas. Décadas depois, continuam sendo reconhecidas imediatamente por uma plateia que reúne pessoas que viveram aquela fase e outras que conheceram o Barão Vermelho muito tempo depois.
O momento mais emocionante veio com “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”. A música, composta por Cazuza e Frejat, ocupa um lugar especial na história do Barão. Lançada no primeiro álbum da banda, em 1982, ela ajudou a estabelecer uma parceria criativa que se tornaria uma das mais importantes do rock brasileiro. Anos depois, a mesma canção voltou ao palco do Rock in Rio em circunstâncias completamente diferentes.
Frejat cantou diante da imagem de Cazuza projetada no telão, criando um dueto virtual que provocou uma reação imediata da Cidade do Rock. O público acompanhou o momento com aplausos e celulares erguidos, registrando uma cena que carregava mais de quatro décadas de história em poucos minutos.
Frejat assume o presente
Aos vocais e à guitarra, ele ocupou o papel que assumiu depois da saída do parceiro, em 1985, e que ajudou a conduzir o Barão por uma nova fase. A apresentação fez questão de lembrar esse período, mostrando que a trajetória da banda não terminou com a saída de Cazuza.
Essa é uma das características mais interessantes do repertório. Ao lado de músicas associadas imediatamente à era Cazuza, apareceram faixas como “Por Você” e “Puro Êxtase”. A banda, portanto, não precisava escolher entre duas identidades. O Barão Vermelho é as duas.
'por você' sempre mexe comigo 😭🎶#BarãoVermelhoNoMultishow pic.twitter.com/oBT8xsIbFH
— Multishow (@multishow) September 6, 2026
E o reencontro dos integrantes originais ganha ainda mais sentido quando entendido dessa maneira: não se trata de recuperar uma formação antiga, mas de revisitar o ponto de partida de uma história que ganhou diferentes caminhos ao longo de mais de quatro décadas.
Uma banda que ainda soa como banda
Existe também um aspecto musical que merece ser destacado. Em uma época em que reuniões de formações clássicas frequentemente são construídas em torno de grandes produções e convidados, o Barão Vermelho manteve uma proposta relativamente direta. Guitarras, baixo, bateria, teclados e voz ficaram no centro da apresentação.
E isso favoreceu as músicas. Guto Goffi e Dé Palmeira retomaram a base rítmica da formação original, enquanto Maurício Barros voltou a ocupar os teclados. Frejat completou o núcleo com guitarra e voz, acompanhado por Fernando Magalhães, convidado para a apresentação e integrante importante da história posterior do grupo. A formação apresentada pelo próprio Rock in Rio como “Encontro Formação Original” recupera justamente os quatro integrantes que fundaram a banda em 1981, com Magalhães reforçando o conjunto ao vivo.
O público também fazia parte da história
Talvez por isso a reação da plateia tenha sido tão importante. No encerramento, “Pro Dia Nascer Feliz” levou a apresentação para o território mais reconhecível possível: um dos grandes hinos do rock brasileiro sendo cantado por milhares de pessoas dentro do mesmo festival em que o Barão já havia tocado em 1985.
impossível não ser feliz com esse ✨ HIT ✨ do #BarãoVermelhoNoMultishow pic.twitter.com/pk6mav5pPS
— Multishow (@multishow) September 6, 2026
A música, nesse contexto, ganha uma dimensão que vai além do hit, ela conecta duas edições do Rock in Rio. O público de 1985 e o público de 2026 podem não ser exatamente o mesmo, mas compartilham algumas canções. E é justamente aí que um festival consegue funcionar como arquivo vivo da música brasileira.

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