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Black Pantera transforma o Sunset em espaço de identidade e resistência no Rock in Rio

Em sua terceira passagem pelo festival, trio mineiro apresentou faixas de “Continental”, dividiu o palco com a Nervosa e mostrou por que sua música ultrapassa os limites do hardcore

Créditos: Day / @a_meninadasfotos para ASetlist

O Black Pantera já não precisa usar o Rock in Rio como apresentação de credenciais. Na terceira passagem pelo festival, o trio mineiro chegou ao Palco Sunset em outro momento da carreira: com uma identidade consolidada, um público próprio e um novo álbum recém-lançado que amplia ainda mais as fronteiras de sua música.

No sábado (5), dia dedicado ao heavy metal, Charles Gama, Chaene da Gama e Rodrigo “Pancho” Augusto entraram no palco às 17h50, em uma apresentação conjunta com a Nervosa. A escolha fazia sentido dentro da programação, mas também criava uma oportunidade para duas das bandas mais relevantes da música pesada brasileira dividirem o mesmo espaço.

O resultado foi um dos shows mais contundentes do Sunset naquele dia.

“Continental” chega ao Rock in Rio

A apresentação aconteceu poucas semanas depois do lançamento de Continental, quinto álbum de estúdio do Black Pantera, lançado em 21 de agosto. O trabalho representa uma nova etapa na trajetória do trio e amplia a combinação de hardcore, rap, soul e referências afro-brasileiras que vem se tornando cada vez mais importante em sua sonoridade.

A abertura com “Hórus” deixou isso evidente. A faixa traz elementos de sincretismo religioso e coloca a ancestralidade negra no centro da composição. Ao vivo, ganhou ainda mais força com a iluminação vermelha e as sirenes que introduziram o show, criando uma atmosfera que rapidamente estabeleceu a identidade daquela apresentação.

Na sequência, “Padrão é o Caralho” e “Obsoleto” mantiveram a intensidade. As primeiras rodas começaram a surgir no público antes mesmo de “Fogo nos Racistas”, música que se tornou uma das principais assinaturas do Black Pantera ao vivo. Quando ela chegou, a resposta da plateia confirmou que aquela não seria uma apresentação para ser assistida de longe.

As rodas punk surgiam, desapareciam e voltavam a se formar conforme as músicas avançavam. Não havia uma divisão rígida entre palco e público. A banda comandava a dinâmica, mas a resposta vinha de baixo. Quando Charles pediu uma roda exclusivamente formada por mulheres, a própria dinâmica do mosh ganhou outro significado. O gesto ampliou uma das mensagens centrais daquele encontro: a ocupação do espaço da música pesada por mulheres e a importância de criar ambientes em que elas também possam participar ativamente da cena.

Nervosa entra e o encontro funciona

A participação da Nervosa foi outro acerto da apresentação. Prika Amaral entrou para dividir “Serotonina”, faixa de Continental gravada originalmente com Duquesa. A partir dali, o show deixou de ser uma apresentação do Black Pantera com uma convidada especial e passou a funcionar como um verdadeiro encontro entre duas bandas.

Créditos: Day / @a_meninadasfotos para ASetlist

A Nervosa também teve seu próprio momento no palco, apresentando músicas como “Ghost Notes”, “Slave Machine” e “Endless Ambition”. Charles voltou a participar em “Endless Ambition”, enquanto as duas bandas se encontraram novamente em “Obrigado, Não”, de Rita Lee, e em um medley de “Revolução é o Caos” e “Exija”, do próprio Black Pantera.

“Tradução” muda o tom

Em meio a toda a agressividade, “Tradução” trouxe um dos momentos mais humanos da apresentação. A música, lançada originalmente em Perpétuo, fala sobre a rotina de uma mãe que trabalha e enfrenta a falta de tempo para estar com o filho. No Rock in Rio, ela ganhou um significado ainda mais pessoal porque Dona Guiomar, mãe dos irmãos Charles e Chaene, estava na plateia. Charles dedicou a música à mãe e aproveitou o momento para defender o fim da escala de trabalho 6x1.

Um novo momento para uma banda que já não é promessa

Há uma diferença importante entre a primeira participação do Black Pantera no Rock in Rio e esta terceira passagem. O trio já não chega como descoberta. Em 2022, quando esteve no Sunset ao lado dos Devotos, ainda era possível apresentar a banda para uma parcela maior do público do festival. Depois vieram outras conquistas, turnês internacionais, o Lollapalooza, novos discos e uma consolidação cada vez maior dentro da cena pesada brasileira.

Agora, o Rock in Rio funciona menos como vitrine e mais como palco de afirmação. A banda já sabe quem é, e sabe também quem está ouvindo.

A escolha de Continental como eixo dessa nova apresentação reforça essa evolução. O álbum reúne participações de artistas como Sandra Sá, Derrick Green, do Sepultura, Duquesa e Chico César, expandindo o universo do Black Pantera para além das referências mais óbvias do hardcore.

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