Banda abriu a programação do Palco Sunset no dia dedicado ao heavy metal com repertório que combinou hard rock e metal, participação de Day Limns e homenagem a Rita Lee
Abrir o Palco Sunset às 15h30 já seria um desafio por si só. No segundo dia do Rock in Rio 2026, dedicado ao heavy metal, a Malvada ainda precisou lidar com uma variável que não estava no repertório: a chuva. Quando a banda subiu ao palco, o festival começava a entrar no clima de uma das noites mais pesadas da edição, e a apresentação rapidamente deixou claro que o quarteto não pretendia esperar pelas condições ideais para entregar seu melhor.
Formada por Indira Castilho nos vocais, Bruna Tsuruda na guitarra, Rafaela Reoli no baixo e Juliana Salgado na bateria, a Malvada abriu o Sunset apostando em uma combinação de heavy metal e hard rock que já faz parte de sua identidade. O repertório transitou por músicas em inglês e português, passando por diferentes momentos da trajetória do grupo e deixando espaço tanto para a força instrumental quanto para a performance.
“Dead Like You” abriu a apresentação, seguida por “Yesterday (My End, My Beginning)” e “Veneno”, estabelecendo logo nos primeiros minutos a proposta do show. “Fear” trouxe uma das passagens mais pesadas da apresentação e acabou coincidindo com o momento em que a chuva ganhou força na Cidade do Rock. Em vez de interromper a dinâmica do palco, a tempestade passou a fazer parte da própria cena.
Peso sem perder a teatralidade
A Malvada trabalha com uma linguagem que não depende apenas da execução das músicas. Existe uma preocupação evidente com presença de palco, imagem e teatralidade, elementos que ajudam a banda a ocupar um espaço maior do que o de uma apresentação convencional de rock.
Indira Castilho assumiu essa função de maneira particularmente forte. A vocalista foi um dos destaques da apresentação, com segurança e potência vocal suficientes para sustentar o repertório mesmo diante das condições adversas. A troca de formação trouxe uma nova dinâmica à banda, e sua presença ajuda a explicar por que o show consegue combinar peso com uma dimensão performática bastante evidente.
Do outro lado do palco, Bruna Tsuruda concentra boa parte da força instrumental da apresentação. “RNR GRRRL” foi um dos momentos em que a guitarrista ganhou maior destaque, mostrando uma execução que não se limita a acompanhar os vocais, mas participa ativamente da construção da identidade da banda. A faixa também evidencia uma Malvada que vem deixando o som progressivamente mais pesado.
A chuva virou parte do espetáculo
A partir de “Fear”, a apresentação ganhou uma circunstância que dificilmente poderia ser planejada. A chuva caiu com força sobre a Cidade do Rock justamente enquanto a Malvada executava uma de suas faixas mais pesadas.
O contraste funcionou a favor da banda. Em vez de reduzir a intensidade, o temporal criou uma atmosfera ainda mais dramática para um show que já carregava elementos teatrais. O palco molhado, os músicos seguindo normalmente e a plateia permanecendo diante do Sunset transformaram a apresentação em uma espécie de teste de resistência compartilhado entre banda e público.
Indira chegou a deixar o palco e ir em direção ao público, sem se importar com a tempestade. Ao mesmo tempo, mensagens projetadas no telão reforçavam temas como o combate ao feminicídio, à homofobia e ao racismo. A atitude ampliou o significado da performance sem transformar o show em um discurso separado da música.
Day Limns entra em cena
A participação de Day Limns acrescentou outra camada à apresentação. O encontro porque ampliava a ideia central daquele show: mulheres ocupando um espaço tradicionalmente associado a uma presença masculina e utilizando linguagens diferentes para fazer parte da mesma cena.
Day entrou para “Aventura Favorita” e também apresentou “Kálice” e “Castelo de Areia”, antes de dividir novamente o palco com a Malvada em “Aversão”. A sintonia entre as artistas foi um dos pontos destacados na cobertura do show, com Day acompanhando a intensidade da banda e explorando sua própria linguagem vocal dentro daquele contexto.
O encontro também tinha uma dimensão simbólica. Antes da apresentação, Day havia definido a participação como uma oportunidade de mostrar a força existente quando mulheres se apoiam dentro da música. No palco, essa ideia deixou de ser apenas uma declaração pré-show e ganhou forma na troca entre as artistas.
“Ovelha Negra” e a presença de Rita Lee
Se Day Limns trouxe o presente para dentro do show, “Ovelha Negra” estabeleceu uma conexão direta com a história do rock brasileiro.
A Malvada escolheu a música de Rita Lee para um dos momentos mais simbólicos da apresentação. A escolha também teve um peso adicional porque o repertório da banda é majoritariamente cantado em inglês, fazendo da faixa uma das exceções em português naquela tarde.
A interpretação manteve o peso característico da Malvada, mas preservou a identidade da composição. Não se tratou de uma tentativa de reproduzir Rita Lee, e sim de levar “Ovelha Negra” para dentro da linguagem de uma banda de heavy metal e hard rock.
Um começo à altura do dia mais pesado
A posição da Malvada na programação também tinha um significado particular.
O sábado foi construído pelo festival como o grande dia dedicado ao heavy metal, com Sepultura, Bring Me The Horizon e Avenged Sevenfold no Palco Mundo, enquanto o Sunset recebeu, ao longo do dia, nomes como Poppy, Black Pantera com Nervosa e Bad Omens. A Malvada foi responsável por abrir esse palco justamente no início da programação. Isso colocava a banda diante de uma tarefa importante: estabelecer o tom de uma programação que ficaria progressivamente mais pesada.
E a resposta foi coerente. A Malvada não tentou competir com os grandes shows que viriam depois. Fez algo mais inteligente, apresentou sua própria leitura do rock pesado e mostrou que existe espaço para diferentes gerações e linguagens dentro do gênero.
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