Sob chuva e diante de uma multidão, banda transformou sua última passagem pelo festival em uma celebração da própria história, sem recorrer aos clássicos mais óbvios
Existe algo curioso em um show de despedida: espera-se que ele olhe para trás o tempo inteiro. No caso do Sepultura, porém, a última apresentação no Rock in Rio foi marcada justamente por uma escolha que contrariou essa expectativa. Em vez de transformar o Palco Mundo em uma retrospectiva previsível, a banda apresentou um repertório concentrado na era Derrick Green, atravessando diferentes momentos de sua trajetória e deixando de fora até mesmo “Roots Bloody Roots”, provavelmente a música mais imediatamente associada ao grupo por parte do público.
A apresentação aconteceu no sábado (5), segundo dia do festival, em uma tarde marcada pela chuva. O Sepultura abriu a programação do Palco Mundo às 16h40 e encontrou uma quantidade expressiva de fãs já reunida diante do palco, mesmo com as condições climáticas adversas. A apresentação fazia parte da turnê Celebrating Life Through Death, que marca a despedida definitiva da banda e terá seu encerramento oficial em novembro, em São Paulo.
Uma despedida sem olhar apenas para trás
O setlist começou com “Against”, seguida por “Choke”, “All Souls Rising” e “Kairos”. Logo de saída, a banda deixava claro que não pretendia construir sua apresentação em torno dos sucessos mais conhecidos de sua história.
Vieram depois “Means to an End”, “The Place”, “Phantom Self”, “Convicted in Life”, “Sacred Books”, “Mind War”, “Corrupted”, “Beyond the Dream” e “Sepulnation”. Todas as 13 músicas pertencem à fase posterior à saída dos irmãos Max e Igor Cavalera, e “Sacred Books”, de Machine Messiah, teve sua estreia ao vivo justamente no Rock in Rio.
Ao privilegiar o repertório da formação atual, o Sepultura se recusou a tratar os últimos quase 30 anos de sua trajetória como um capítulo secundário. Derrick Green está no grupo desde 1997 e, como destacou Andreas Kisser durante a apresentação, sua presença representa uma parcela enorme da história do Sepultura que também merece ser celebrada.
Derrick Green no centro da história
Derrick Green ocupa uma posição particularmente importante dentro da narrativa do Sepultura. Entrar em uma banda já consagrada internacionalmente e substituir um vocalista fundador seria, em qualquer circunstância, uma tarefa enorme. Fazer isso em um grupo cuja formação original havia produzido alguns dos discos mais influentes do metal brasileiro tornava o desafio ainda maior.
Quase três décadas depois, Green já não é um substituto, é parte da identidade do Sepultura. Sua voz está associada a uma longa sequência de discos, turnês e transformações que ajudaram a manter a banda ativa em diferentes momentos da música pesada. No Rock in Rio, isso ficou evidente porque o repertório não tratou essa fase como uma extensão menor do legado.
A emoção veio no fim
A despedida ficou mais evidente quando o show chegou aos minutos finais. Depois de uma apresentação marcada pela intensidade, os integrantes se aproximaram do público e transformaram o encerramento em um momento de reconhecimento mútuo. Baquetas foram distribuídas como lembrança daquela última passagem pelo Rock in Rio, criando uma conexão física com uma história que, durante décadas, foi construída justamente através dos shows.
simplesmente o metal br sendo representado por ELES! 🤘🤩🇧🇷 #SepulturaNoMultishow pic.twitter.com/HXOyXT5iOX
— Multishow (@multishow) September 5, 2026
É uma imagem simples, mas poderosa. Uma banda que passou boa parte da carreira viajando pelo mundo termina sua relação com um dos maiores festivais de sua história entregando ao público um pedaço daquele último show. Não existe maneira mais direta de transformar uma despedida em memória.


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