ACOMPANHE A COBERTURA COMPLETA DA CIDADE DO ROCK

Halsey transforma suas vulnerabilidades em espetáculo e faz do Rock in Rio um retrato de sua própria história

Entre rock, pop, teatralidade e referências que atravessam diferentes fases da carreira, cantora entregou um dos shows mais pessoais do último dia do festival

Créditos: @iamhalsey

Halsey nunca pareceu interessada em escolher uma única versão de si mesma. Desde Badlands, álbum que completa dez anos em 2026, a cantora construiu uma carreira justamente a partir das contradições: pop e rock, delicadeza e agressividade, vulnerabilidade e confronto, persona e confissão. No Palco Mundo do Rock in Rio, neste domingo (13), tudo isso apareceu reunido em um espetáculo que atravessou diferentes capítulos de sua trajetória sem tentar organizá-los demais. Era Halsey em estado bruto, mas também uma artista que hoje parece compreender muito melhor o tamanho da própria linguagem.


A apresentação fazia parte da The Girl in the Tower Tour, turnê que já vinha sendo construída como uma retrospectiva bastante particular. Antes do festival, Halsey havia dito à Billboard Brasil que queria montar um repertório capaz de representar todos os seus discos e incluir músicas que ainda não havia apresentado no Brasil. O show tinha 75 minutos previstos e chegava ao país depois de uma sequência de apresentações europeias em que a cantora vinha costurando músicas de diferentes eras.

A escolha fazia sentido especialmente porque Halsey chegou ao Rock in Rio celebrando uma década de Badlands, trabalho que ajudou a colocar seu alt-pop em outro lugar dentro da música pop. “Nightmare”, “Castle”, “I am not a woman, I’m a god”, “Dog Years”, “You Asked for This”, “Experiment on Me”, “honey”, “Without Me”, “Colors” e “Gasoline” fazem parte da espinha dorsal dessa fase da turnê, reunindo músicas que, embora pertençam a momentos diferentes, têm em comum uma artista constantemente interessada em questionar a própria identidade.


É justamente aí que a apresentação deixa de ser apenas uma sucessão de hits. “Nightmare” carrega a Halsey combativa; “Colors” recupera a atmosfera de uma de suas primeiras fases; “Without Me” representa o momento em que sua intimidade virou fenômeno pop; enquanto as músicas mais recentes apontam para uma artista cada vez menos interessada em separar completamente o que é pessoal do que é artístico. O repertório funciona como uma linha do tempo, mas não uma linha reta.


The Great Impersonator, seu trabalho mais recente, aprofundou ainda mais essa característica. O álbum foi concebido a partir de uma série de possibilidades sobre quem Halsey poderia ter sido em outras vidas e épocas, dialogando com diferentes referências musicais e visuais. A cantora nunca deixou de experimentar personagens, gêneros e estéticas, mas existe uma diferença importante agora: por trás de todas essas versões, há uma identidade que parece mais segura de não precisar se definir por uma só delas.

Essa liberdade também aparece na relação de Halsey com o rock. A colaboração com Trent Reznor e Atticus Ross, do Nine Inch Nails, em The Great Impersonator não o foi uma simples aproximação estética. Para uma artista que cresceu admirando o grupo, trabalhar com os dois produtores tinha um peso quase geracional. Em entrevista à Billboard, ela contou que sua versão adolescente provavelmente ficaria incrédula ao descobrir que um dia faria um álbum com eles.

Mas o rock de Halsey nunca parece existir apenas como gênero. Ele funciona como uma ferramenta para colocar para fora aquilo que o pop mais polido talvez não comportasse. “Experiment on Me”, “Nightmare” e outras faixas de sua discografia carregam essa necessidade de tensão, enquanto momentos mais eletrônicos e pop mostram que a cantora nunca abandonou completamente suas origens. No Rock in Rio, essas linguagens convivem sem que uma precise anular a outra.

Existe ainda uma Halsey diferente daquela que o público brasileiro conheceu em suas primeiras passagens pelo país. A apresentação no festival marcou sua estreia no Rock in Rio, mas não sua estreia no Brasil. Esta foi sua quinta visita ao país, e a cantora já havia declarado que considera o Brasil um de seus lugares favoritos no mundo desde sua primeira apresentação por aqui, no Lollapalooza de 2016. Dez anos depois, a relação parece ter ganhado outra camada.


Talvez por isso seja tão interessante observar Halsey hoje. A sensação não é de que ela finalmente encontrou uma identidade definitiva, mas de que deixou de precisar encontrá-la. O sentimento de ser uma outsider, que ela própria reconhece como algo que a acompanha desde antes da fama, continua presente. A diferença é que agora ela parece confortável em ocupar esse lugar.

Postar um comentário

0 Comentários