ACOMPANHE A COBERTURA COMPLETA DA CIDADE DO ROCK

Hwasa chega ao Palco Mundo com a força de quem já conhece o tamanho do próprio nome

Primeira artista solo de K-pop no palco principal do Rock in Rio, cantora sul-coreana reencontra o Brasil oito anos depois e reafirma sua identidade entre hits, dança e a liberdade de não caber em uma única imagem

Créditos: @rockinrio

Antes mesmo de Hwasa aparecer no Palco Mundo, o Rock in Rio já dava sinais do tamanho que aquela apresentação havia adquirido. Depois do show do NEXZ, a produção precisou pedir que o público recuasse alguns passos diante da concentração de pessoas na frente do palco. O alerta de segurança permaneceu nos telões por cerca de 15 a 20 minutos, enquanto equipes orientavam a plateia a se distribuir melhor pelo espaço. A movimentação tinha relação direta com a expectativa em torno do dia histórico do K-pop, especialmente entre fãs que chegaram cedo para garantir lugar na grade para Stray Kids, mas também antecipava o cenário que Hwasa encontraria ao subir ao palco.

Às 19h, a cantora sul-coreana entrou para escrever uma página inédita no festival. Hwasa foi a primeira artista solo de K-pop a se apresentar no Palco Mundo, dentro da primeira programação inteiramente dedicada ao gênero na história do Rock in Rio. A escolha não poderia ser mais coerente com uma carreira que, desde os tempos de MAMAMOO, foi construída justamente em torno de personalidade, presença e uma voz que não se encaixa facilmente nos padrões mais previsíveis do pop coreano.

O encontro também tinha um componente afetivo. Hwasa já havia passado pelo Brasil em 2018 com o MAMAMOO, em uma turnê promocional ligada ao miniálbum Red Moon. Oito anos depois, retornou ao país em outra posição: não mais como integrante de um grupo, mas como artista solo capaz de sustentar um palco desse tamanho com o próprio repertório. A diferença é significativa porque sua trajetória individual deixou de ser um projeto paralelo para se tornar uma parte central de sua identidade artística.

“I Love My Body”, lançada em 2023 e uma das músicas do setlist, representa uma das características mais reconhecíveis de Hwasa: a capacidade de transformar uma discussão sobre autoimagem em pop de grande alcance. Já “TWIT”, de 2019, pertence ao começo de sua trajetória solo e ajudou a estabelecer uma linguagem própria fora do MAMAMOO. Entre uma e outra, existe uma artista que nunca dependeu exclusivamente de uma fórmula para permanecer relevante.

“Maria”, por sua vez, permanece como um dos capítulos fundamentais dessa construção. A faixa-título do EP lançado em 2020 ultrapassou a fronteira do K-pop e tornou-se um dos maiores sucessos da carreira solo da cantora, com coreografia viral, presença nas paradas internacionais e uma identidade visual que ajudou a consolidar Hwasa como uma das figuras mais reconhecíveis de sua geração.

O momento atual acrescenta outra camada à apresentação. Depois do sucesso gigantesco de “Good Goodbye”, lançado em outubro de 2025, Hwasa chegou ao Brasil apresentando também “So Cute”, single lançado em abril de 2026. A música surgiu como uma espécie de novo começo para a cantora, que falou sobre encarar essa etapa com a sensação de partir novamente do zero e sobre encontrar força em pequenas coisas diante da confusão e das inseguranças da vida adulta.

A escolha de “So Cute” também ajuda a entender por que Hwasa continua sendo uma figura tão particular dentro do K-pop. A cantora poderia facilmente ter apostado apenas na imagem poderosa que marcou parte de sua carreira, mas preferiu incorporar uma faceta mais leve e pessoal. A própria artista afirmou que o mais difícil para ela não é a pressão de criar, mas chegar a um momento em que não tenha histórias para contar. É uma declaração que ajuda a explicar uma carreira marcada por mudanças de registro e por uma disposição constante para experimentar novas imagens sem abandonar a própria identidade.

Essa liberdade apareceu com força no palco. Hwasa não precisava provar ao público brasileiro que conhecia o tamanho de seus hits. O desafio era outro: ocupar sozinha um espaço que, naquela noite, vinha sendo associado principalmente a grupos e grandes formações de K-pop. NEXZ havia aberto a programação, Stray Kids ainda encerraria a noite, e entre eles estava uma artista que carregava o peso de representar, individualmente, uma indústria acostumada a transformar o trabalho coletivo em espetáculo.

Créditos: @rockinrio

A resposta veio pela combinação que tornou Hwasa conhecida: voz grave, sensualidade, coreografias precisas e uma presença de palco que não depende exclusivamente da quantidade de elementos visuais ao redor. A cantora entende o próprio corpo como parte da performance, mas não reduz sua identidade a isso. Há humor, vulnerabilidade, atitude e uma consciência muito clara de como ocupar o centro das atenções.

O contexto brasileiro tornou tudo ainda mais significativo. Antes da apresentação, Hwasa havia declarado que encara qualquer palco como algo precioso e que pretendia chegar ao Rock in Rio com amor pela música e pelos fãs. A frase poderia parecer protocolar em outro contexto, mas ganhou outro peso diante de seu retorno ao país e da dimensão que a apresentação adquiriu naquela noite.

O Rock in Rio demorou 41 anos para colocar o K-pop no centro de sua programação. Quando finalmente fez isso, não escolheu apenas um grupo de enorme popularidade. Abriu espaço também para uma artista que representa uma outra possibilidade dentro do gênero: a de uma mulher que construiu uma identidade individual forte o suficiente para ocupar sozinha o maior palco do festival.

Postar um comentário

0 Comentários