Tecladista do Maroon 5 e vencedor de seis Grammys, artista de Nova Orleans levou soul, R&B e gospel ao Rock in Rio em apresentação centrada no piano, na voz e na força da música ao vivo
Existe uma diferença importante entre subir ao palco como integrante de uma das maiores bandas pop do mundo e fazê-lo sustentando uma carreira própria. PJ Morton conhece os dois lados dessa história. No Rock in Rio, porém, foi a segunda condição que ganhou protagonismo. No Palco Sunset, o músico de Nova Orleans apresentou sua própria leitura de soul, R&B, gospel e pop, em uma noite na qual o repertório falou mais alto do que a associação imediata com o Maroon 5.
A apresentação aconteceu às 20h10, entre o show de Os Garotin com Duquesa e a chegada do Jamiroquai ao Sunset. Era uma posição particularmente interessante dentro da programação de 11 de setembro, um dia dominado pelo K-pop no Palco Mundo, com NEXZ, Hwasa e Stray Kids, enquanto o Sunset construía uma espécie de outra linha narrativa, reunindo artistas ligados à música negra, ao pop, ao soul e às diferentes possibilidades da música contemporânea.
Morton chegou ao Rio em um momento especialmente movimentado de sua carreira. Em 19 de junho, lançou Saturday Night, Sunday Morning, seu novo álbum, apresentado pelo próprio artista como mais um capítulo de sua trajetória dentro do R&B independente. O disco veio acompanhado de singles como “Mutual” e “Sell My Soul” e sucede trabalhos que já mostravam sua capacidade de transitar entre o soul contemporâneo, o gospel e uma escrita profundamente ligada às experiências pessoais.
PJ Morton entregando vocais cristalinos e muito carisma no palco sunset 💞#PJMortonNoGloboplay #RockInRioNoGloboplay pic.twitter.com/ubKdJCSjKe
— globoplay (@globoplay) September 11, 2026
No palco, o piano ocupa um lugar central nessa história. Não como simples instrumento de acompanhamento, mas como extensão da composição e da própria maneira de Morton conduzir a apresentação. Essa relação ajuda a explicar por que seu repertório consegue preservar uma atmosfera intimista mesmo dentro de um festival de grandes proporções. Em vez de depender exclusivamente de grandes efeitos ou de uma produção visual carregada, o artista encontra força na banda, nos arranjos, nos vocais e na capacidade de deixar uma canção crescer naturalmente.
O repertório recente de Morton mostra bem essa direção. Em apresentações de 2026, músicas como “Mutual”, “My Peace”, “Good Morning”, “Ready”, “Claustrophobic”, “Mercy”, “Sell My Soul” e “How Deep Is Your Love?” apareceram em diferentes combinações, reunindo faixas de fases distintas da carreira.
“Sell My Soul” é particularmente representativa da fase atual. O single faz parte do novo álbum e retoma uma das características mais fortes do trabalho de Morton: a capacidade de aproximar o R&B contemporâneo de uma tradição gospel que permanece presente mesmo quando a produção aponta para o pop.
Essa ligação com o gospel também ajuda a compreender a intensidade de momentos mais confessionais de sua discografia. “My Peace”, por exemplo, pertence a uma vertente espiritual que atravessa sua produção e mostra um artista interessado em falar de fé, vulnerabilidade, relações e amadurecimento sem transformar essas experiências em fórmulas. É uma dimensão que o diferencia de grande parte do pop produzido em escala industrial e que ganha ainda mais força quando sustentada por uma banda ao vivo.
O fato de PJ Morton estar no Rock in Rio na véspera do show do Maroon 5 adicionou uma curiosidade à programação. No sábado, a banda de Adam Levine ocuparia o Palco Mundo, enquanto Morton havia passado pelo Sunset um dia antes. Para quem conhece sua trajetória principalmente por sua participação no grupo, o festival ofereceu a oportunidade de inverter a perspectiva: antes de vê-lo como parte de uma banda gigantesca, era possível conhecê-lo como compositor, cantor, produtor e instrumentista com uma obra própria.
E essa talvez seja a principal força de sua passagem pelo festival. PJ Morton não precisou disputar atenção com a grandiosidade do Palco Mundo nem reproduzir a escala de um espetáculo de arena. Seu show encontrou outro caminho, baseado em musicalidade, interpretação e na relação direta entre artista e banda. É uma proposta que combina especialmente bem com a lógica do Sunset, palco que nesta edição vem funcionando como espaço para encontros e apresentações capazes de revelar diferentes lados de artistas já conhecidos ou apresentar ao público nomes que ainda não ocupam o centro do imaginário popular brasileiro.


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