Em “A La Sangalo”, cantora transforma o Palco Mundo em um encontro entre axé, latinidade, herança familiar e tudo aquilo que construiu sua identidade artística
Poucos artistas poderiam encerrar uma edição do Rock in Rio carregando tanta história sobre os próprios ombros quanto Ivete Sangalo. Neste domingo (13), a cantora chegou ao Palco Mundo para sua 20ª apresentação na história do festival, marca que a coloca como a artista que mais vezes se apresentou no Rock in Rio considerando todas as edições nacionais e internacionais. Mas, em vez de transformar o feito em uma retrospectiva, Ivete escolheu olhar para dentro. “A La Sangalo” nasceu justamente desse movimento: revisitar origens, referências, afetos e influências para entender o que existe por trás da artista que o Brasil conhece tão bem.
A proposta já estava anunciada no próprio conceito do espetáculo. “A La Sangalo” aproxima a música de Ivete da latinidade que atravessa sua trajetória, mas sem tentar encaixá-la artificialmente em uma estética latina. A ideia é mais interessante do que isso: reconhecer que essa musicalidade sempre esteve por perto, convivendo com o axé, o samba, o pop e as referências brasileiras que formaram a cantora.
a cidade do rock tá fervendo com a veveta!!#IveteSangaloNoMultishow #RockinRioNoMultishow pic.twitter.com/qqSaswkJJc
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A abertura com uma versão mais latina de “Dançando” já dava a pista do caminho escolhido. A música, lançada originalmente em 2012 e posteriormente conhecida também pela versão com Shakira, ganhou outro contexto dentro do espetáculo. Em vez de aparecer apenas como mais um sucesso do repertório, serviu como uma espécie de porta de entrada para essa Ivete que se permite revisitar sua própria relação com a música latina.
E talvez esteja justamente aí a beleza de “A La Sangalo”. Ivete não precisa provar que sabe fazer axé, porque isso já está escrito na história da música brasileira. Também não precisa demonstrar que consegue dialogar com outros ritmos, porque sua carreira inteira é construída sobre essa capacidade. O que existe agora é uma artista em plena maturidade criativa, com liberdade suficiente para voltar às próprias referências sem precisar pedir licença para ninguém.
os vocais 🗣️🗣️🗣️#IveteSangaloNoMultishow #RockinRioNoMultishow pic.twitter.com/Rj5TVTwpjx
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Há ainda uma dimensão familiar muito forte nessa apresentação. Quando Ivete fala sobre origem, não está falando somente de geografia ou de gênero musical. Existe uma herança afetiva nas músicas que ouviu, nas referências que recebeu e na maneira como diferentes culturas atravessaram sua formação.
E existe uma ironia bonita nisso tudo: uma das maiores estrelas brasileiras, acostumada a transformar qualquer espaço em Carnaval, escolheu justamente o palco de um festival conhecido mundialmente pelo rock para apresentar um espetáculo sobre pertencimento. Ivete já provou inúmeras vezes que não precisa se adequar ao conceito de um evento para caber nele. Desta vez, levou ao Rock in Rio uma versão ainda mais consciente da própria identidade.
veveta já chegou assim: 💃🌹❤️🔥#IveteSangaloNoMultishow #RockinRioNoMultishow pic.twitter.com/iCKwRMGlfA
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O figurino também faz parte dessa construção. Assinado pela própria Ivete em parceria com Kevin Zanne, o visual acompanha a proposta de um espetáculo pensado como experiência autoral, em que música, estética e referências pessoais conversam entre si. Na abertura, a cantora surgiu de vermelho, reforçando a dimensão performática que há décadas acompanha seus shows, mas agora dentro de uma narrativa visual construída especificamente para “A La Sangalo”.
E é impossível ignorar a dimensão emocional de assistir a Ivete nesse momento da carreira. Aos 54 anos, ela não aparece no palco tentando reproduzir a artista que foi aos 30, 40 ou 50. Pelo contrário. Existe uma segurança diferente em poder revisitar a própria história sem ficar presa a ela. A reinvenção, nesse caso, não significa abandonar o que veio antes, mas ampliar aquilo que sempre esteve presente.

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